domingo, 26 de agosto de 2007

"Um unicórnio em seu jardim"

"Numa bela manhã, um homem que tomava seu café olhou para fora da janela e viu - quem dera! - um unicórnio branco, com um chifre dourado, mascando tranqüilamente as rosas de seu jardim. No conto do autor americano James Thurber, esse senhor foi então acordar sua mulher e disse: 'Tem um unicórnio no jardim, comendo nossas rosas'. Irritada, ela retrucou: 'Unicórnio é um animal mítico'. E, virando-se para o outro lado, voltou a dormir. Intrigado, o marido caminhou lentamente até o jardim. O unicórnio estava ali, beliscando suas tulipas. 'Aqui, unicórnio', chamou ele, oferecendo um lírio, que o animal comeu solenemente.
Com o coração saltitante - obviamente, porque afinal de contas havia um unicórnio em seu jardim -, o camarada foi novamente despertar sua mulher. 'O unicórnio comeu um lírio', anunciou ele. Só que agora ela ficou realmente irritada. 'Você é um demente, e eu vou te internar no manicômio!' O marido, que nunca apreciou muito a idéia de manicômios - especialmente num dia tão lindo, com um unicórnio em seu jardim -, refletiu por um momento e disse: 'Isso é o que veremos'. Mas antes de descer as escadas, completou: 'E ele tem um chifre dourado no meio da testa'.
Ao chegar novamente ao jardim, o unicórnio já havia ido embora. O homem se sentou em meio às rosas e adormeceu. Sua mulher se vestiu rapidamente. Ela estava bastante irritada e regozijava-se por ter a chance de pegar seu ridículo marido. Ligou para a polícia e depois para o psiquiatra, instruindo-os para que chegassem logo com uma camisa-de-força. Quando chegaram, ela, já muito agitada, foi logo dizendo: 'Meu marido viu um unicórnio hoje de manhã!'.O policial e o psiquiatra se entreolharam, descrentes. 'Ele me disse que o unicórnio havia comido um lírio', continuou ela. De novo, psiquiatra e policial trocaram um olhar suspeitoso. 'E também disse que o bicho tinha um chifre dourado no meio da testa!', insistiu mais uma vez. Subitamente, o policial e o psiquiatra levantaram de suas poltronas e agarraram-na. Ela resistiu violentamente, mas no final eles conseguiram dominá-la e enfiaram-na numa camisa-de-força. Foi nesse momento que o marido entrou, chegando do jardim. 'Você por acaso disse a sua mulher que viu um unicórnio?', perguntou-lhe ceticamente o policial. 'O unicórnio é um animal mítico', respondeu seriamente o marido. 'Isso era tudo o que precisávamos saber', replicou o psiquiatra. 'Estamos internando sua mulher, ela surtou de vez.' Chutando e berrando, ela foi levada ao manicômio para exames. E que fim teve o marido? Viveu feliz para sempre, concluiu Thurber.
E quanto a nós? Será que estamos vivendo felizes para sempre? Ou estamos nos confinando nas camisas-de-força do racionalismo intelectual? Vivendo quase entorpecidos por uma tecnologia cada vez mais utilitária, será que não estamos perdendo o espírito de deslumbramento e encantamento?
A fantasia não é um escapismo. É uma ferramenta crítica para desenvolver pensamento divergente e competência na resolução de problemas, explica a pesquisadora Sandra Russ, da Universidade Case Western Reserve, nos Estados Unidos. 'Pensamento divergente é a habilidade de gerar diferentes idéias sobre determinado tópico. Ele permite que as pessoas se tornem mais aptas a solucionar problemas e mais capazes de lidar com estresse e adversidade', diz.
Como poderemos sobreviver sem fantasia num mundo cada vez mais desprovido de magia e acolhimento? Será que, contrariamente ao conto de fadas, somos príncipes e princesas nos transformando em sapos?
Espero que, quando você acorde amanhã e olhe pela janela, veja um unicórnio em seu jardim. E eu espero ver um também."
Susan Andrews, Revista Época, 11 de junho de 2007.

Tanto tempo sem postar, eu queria voltar com algo realmente bom... creio que aí está. Não é de minha autoria, mas é algo que eu acredito. Espero que com ele façam um bom proveito e assim que acordarem amanhã vejam um unicórnio em seu jardim(quem sabe no quintal).