quarta-feira, 2 de julho de 2008

Outros lugares

Fiquei perdido todo aquele tempo, nem sei o quanto foi. Perdido, chamando por solidão. Morrer sozinho, sem ninguém sofrer por mim, sem ninguém saber, sem se importar. Ela abriu a porta de sua casa, a dias, anos, não a via... de frente pra ela, ela me olha, eu estava acabado. Não tinha mais idéia do tempo.
-Por quanto tempo eu sumi? -perguntei, ela devia saber.
Esperava ouvir vinte anos, quando ela disse:
-Duas horas...
Ela estava assustada, eu senti isso.
-Quer entrar? -disse carinhosa, como sempre.
Eu entrei de má vontade, ela fez um gesto me convidando ao sofá. Me sentei, ela sentou ao meu lado e me olhou fundo.
-Eu não entendi o que aconteceu, -ela fala com cautela- nós estávamos conversando calmamente lá na praça, depois você me olhou estranho e...
-Pára de se importar comigo! Pára! -eu protestei.
Ela é sensível, os olhos maquiados e vermelhos, cheio de lágrimas que ainda não escorreram. Do que tinha culpa, ela não entendia o que se passava comigo. Eu estava preso, sem liberdade alguma. Como podia culpá-la, condená-la. Eu mesmo que me pus naquela situação. Deixá-la sofrer não seria certo; mas não consigo me controlar mais, não sou eu que faço isso. Estou dominado por aquilo que sempre temi e me entreguei.
-Não ouse derramar uma lágrima, -ameacei- se não aqui mesmo eu me mato. Se você chorar, merecerá meu sangue!
Assustada. Estava pálida, me encarava triste. Queria me calar, mas não conseguia; tinha toda a consciência do que fazia, mas não podia me conter. Eu fiz um pacto comigo mesmo, pararia de me drogar e daí merecia tê-la. Podia ver em seus olhos, ela gostava de mim; mas nunca gostou do meu hábito. A conheci quando estava drogado, fumei ao seu lado muitas outras vezes quando conseguimos nos encontrar. Outro dia, quando estávamos conversando ela me contou que tinha nojo de quem usa drogas e não conseguia entender como acabou conversando comigo. Para poder tê-la, eu teria que ser como ela espera que eu seja no mínimo. Prometi a mim mesmo parar com isso, até para o meu bem. Sou fraco, injetei e fumei até acabar com tudo que tinha em casa.
A amava. Por isso eu não podia vê-la mal, eu a amava. Sempre com seu jeito certinho, sua delicadeza. Todas aquelas coisas que me enjoam. Havia ali duas dúvidas enormes: como gostei dela e como ela se aproximou de mim? Cada um com seus desgostos no outro, nos tornamos próximos.
-Não diz isso... -ela pediu.
-Não preciso de ninguém. -disse firme, resistindo aos seus olhos.
-Marcos, se você não tem nem a si mesmo, você precisa de alguém. -disse com olhar de súplica.
Sozinho, eu não me acharia, porque eu me abandonei. Mas e ela? Eu estava mesmo sozinho? Ela me abraçava, queria me dar carinho, mostrar que eu tinha a ela. Só a ela, pois nem a mim eu tinha. Eu queria ela, mas ela sofrer por mim... não. A empurrei, ela caiu no chão e não conseguiu me olhar. Seu braço estava vermelho, pois havia a agarrado sem me dar conta. Teve medo de mim, vendo-a ali, caída e desprotegia, entendi que não precisava mais de pacto algum. Segurei-a mais forte ainda, onde doía, coloquei-a de pé.
-Marcos, pára! -ela pediu- Tá me machucando.
Até aquele momento não me dei conta, mas ela era linda. No ímpeto na minha loucura fitei-a. Deixei de ser humano, fui tão consumido que jamais podia voltar a ter sentimentos por ela. O que me deixou fazer aquilo? Eu a amava e machucava sem sentimento algum. Cai no chão e vi que tudo escureceu. Apenas me lembro de ter acordado no sofá da casa dela, será que tudo aquilo foi um pesadelo? Notei que ela estava no outro sofá, me olhando e cuidando de mim. Tinha uma xícara de chá na mão, observei seu corpo, o braço ainda estava vermelho; o pesadelo era real.
-Como você consegue?
-Consigo o quê?
-Machuquei teu braço e você tá aqui cuidando de mim.
-Marcos, você não estava bem. Foi culpa de...
-Ter me drogado, eu sei. Sou um idiota.
-É o maior idiota que eu já vi.
-Sou mesmo. O mais estúpido, menos sensível.
-O mais insano, por sinal.
Insanidade. Me lembrei de tudo que ela me disse naquela tarde, do porque foi falar comigo. Disse ela que, naquele show que nos vimos pela terceira vez, estava com os amigos e não conseguia mais aguentá-los, todos perfeitos, mais estranhos que ela. Então eu me aproximei e quis conversar com ela. Eu fumava e ela recusou sem pensar. Mas, quando se virou e viu seus amigos reclamando do som alto e querendo ir embora para o shopping, ela decidiu se apresentar.
-Lembra de quando nos conhecemos?
-Sim.
-Lembra do que você me disse? Do porquê foi falar comigo.
-Claro.
-Você é a mais insana.
-Talvez tenha razão. Quanto mais eu convivo contigo, mais eu entendo que aquilo foi a melhor solução. Olhei para meus amigos e vi minha vida certinha e chata, que eu sempre achei que fosse vida mesmo. Mas quando me deparei com aquele cara louco, drogado e animado, decidi dar uma chance às coisas novas que eu poderia conviver. Mas eu jamais quis ser como você, drogado. O que eu gosto de você é de não se importar com a opinião dos outros, de viver o que acha que tem que ser vivido.
-Roberta... obrigada por ser uma boba que cuida desse idiota.
Desmaiar foi a melhor solução, me perder na loucura por alguns minutos. Eu quase a matei, eu quase morri. Roberta foi a melhor solução para a minha vida. Aguentando meus ataques, minha fraqueza até que, por não poder me controlar, eu me perdi de vez. A última vez que fitei em seus olhos ela não estava assustada e nem aliviada. Garota forte, foi mais tempo tendo que se acostumar a não me ter do que tento que cuidar de mim. Eu a amei como nunca pude imaginar, aquela certinha. Roberta hoje caminha pelo parque se lembrando do que poderia não ter feito e, como consequência, teria a vida mais vazia.

Um comentário:

Anderson disse...

May, realmente seus textos causam impacto em mim x__X

não sei qual o seu truque pra isso, mas me causam impacto profundo...

deve ser a forma como você escreve, ou sei lá... num sei o que é... x___X

só sei que tá mais que demais como sempre! ^^

beijos te amo! ^^

saudades...