domingo, 1 de fevereiro de 2009

Maranduba

Eram dez horas da noite, eu e o Will caminhávamos descalços na orla da praia; depois de tantos anos sem mar, eu vim para Ubatuba - nessa época é bem movimentada, tanto que encontrei o Will, um conhecido do colégio, ele e os primos estavam fazendo passeios ecológicos. E eu, com dezessete anos, finalmente pude viajar só com as minhas amigas.
Nós jantamos - sozinhos - peixe num quiosque à beira mar. A lua iluminava as ondas agitadas e nós andávamos em direção a minha pousada, aonde ele havia estacionado o carro. Eu me sentia estranho naquela situação, não tinha muita intimidade com ele - apesar dele ser bem interessante -, o que induzia a questionar sobre o que eu fazia ali.
-Que dia agitado, hein? - eu tentei quebrar o gelo - Não esperava nunca encontrar um conhecido em Picinguaba!
-Há! - esse riso irônico que ele adora dar - É muito comum no verão, alta temporada!
Eu não tinha mais sobre o que puxar assunto. Algumas idéias passavam inutilmente pela minha cabeça, nada se encaixava naquela situação. Nem entendo como jantamos juntos. Eu pude perceber que ele parecia inquieto, abria a boca mas nada dizia, até que...
-Dani - ele disse, engolindo seco -, eu preciso dizer que... - parou de caminhar e me fitou; a sinfonia das ondas aumentou o clima - eu te convidei para sair porque eu sempre te achei interessante.
A praia aumenta o clima de "amor de verão". O Will é um cara legal, eu sempre gostei das nossas mini-conversas que pouco aconteciam. Acho que esse foi o motivo para eu aceitar o convite.
-A gente se encontrou aqui - ele fez uma pausa; então o poste de luz de alguma pousada se apagou, indicando que era bem tarde -, resolvi não desperdiçar a chance.
Acho que a pressão de 1 atm me fez entrar naquele clima, embora todo o ambiente também colaborasse. Um bom verão pedia uma noite única, como aquela.
Sem luz alguma, ele se aproximou e me abraçou. Todo o ambiente mais essa situação - sua mão quente envolvendo minha cintura.
-Ei, vamos chegar mais perto do mar? - sua voz era tranquila e sedutora. Podia jurar que ele era algum tipo de boto de água salgada tentando me levar até sua casa submarina aonde eu me afogaria -, para colocar os pés na água.
Demos alguns passos - de mãos dadas - até o mar, foi a primeira vez que eu fiz isso à noite. E ele era meu primeiro "namorado de praia". Sentir a água a noite era ainda melhor. Levei um susto quando ele me abraçou por trás.
-Eu gostei muito dessa noite juntos - e gostei mesmo, o peixe estava ótimo -, ainda mais caminhando aqui. O mar é lindo.
-É maravilhoso! - ele disse calmo - Mas devo acrescentar que, apesar de tudo, não é tão incrível quanto você.
-Will - eu mal pensei antes de dizer -, vamos ser sinceros, você mal me conhece!
-Há! - de novo o riso irônico - Dani, só de ver o teu jeito, como você fala, sua voz linda - ele, o cantor, disse isso. Eu ouvi dizer que ele era vocalista de alguma banda do colégio -; seu olhar adocicado de mel e intenso, penetrante - eu me senti completamente envolvida naquela abraço -; e sentir de perto teu calor, teu toque - era impressão minha ou todo o conjunto da obra me fez revelar tudo isso? - teu cheiro; não me dá dúvidas de que você é incrível, mais que o mar - eu me senti sem chão, literalmente, porque a maré começou a levar a areia debaixo dos meus pés.
-Will... -eu me perdi em palavras. Mas uma vez, eu não soube o que que dizer.
Talvez se eu comentasse que ele também era interessante. Mas ele foi mais rápido. Girou em torno do meu corpo e, com os pés no mar infinito, me beijou. Podia-se ouvir apenas o som das ondas quebrando.
Caminhamos alguns metros, fazendo planos para a manhã seguinte, e logo chegamos na pousada. Na frente do meu quarto havia uma rede, onde deitamos para tentar prolongar a noite.
Eram seis e meia da manhã quando eu acordei com o Sol no rosto, o mar ainda tocava sua interminável sinfonia. Eu percebi que ainda estávamos com os pés cheios de areia, deitados na rede.



Cenário real, história imaginária. Depois de tantos anos sem mar, eu fui para Ubatuba. Dormi tarde por ficar deitada na rede, escrevendo até acabarem as idéias(que voltaram quando deitei na cama, lá fui eu, à luz do celular debaixo do lençol, escrever novamente). Acordei cedo para ver o Sol nascer - num vermelho florescente que jamais achei que existia.
Foram apenas 24 horas ao som da sinfonia constante das ondas.

5 comentários:

And Yoshi disse...

nossaaaaaaaaa *__*

que demais!

fazia um tempo que não vinha ao teu blog... dei uma sumida, mas voltar e ver três posts muito interessantes e ver o último deles perfeito desse jeito, me fez entrar em estado de surto! xD

pena que foi só uma estória né... por que deve ser tão romântico namorar ao som do mar *__*

nunca tive oportunidade de fazer isso...

pergunta: comeu peixe mesmo ou ficou só na estória? xD

beijos

love you!

Mariana Guerra disse...

Na noite em que eu escrevi isso, comi casquinha de siri e pescado(mas não tão bons quanto os amparenses, incrivelmente).
Já que você perguntou de comida, no dia seguinte foi: biju, camarão no espeto, queijo coalho, bolinho de bacalhau, água de coco e suco de açaí!
:D
E, eu juro, não passei mal!

Marina disse...

Heeeey, lindo!!!!

Praia é mesmo um cenário inspirador, não???

(adorei a "casa submarina", hehehehe!!

Anônimo disse...

I read your lovely story and it made me think about love, dear Mariana. Maybe the awnser to love for our generation is within hate. So I ask you: Can you hate enough to love? Can you unmask this new product called love with the spear of the unconsumed hate?
Think and spit it out or, at your case, write it down and make us wonder!

.ponto disse...

Achei a tua história boa. Da maneira que você escreve me imagino nela por sentir ela. Gostaria que você comentasse a minha história de praia ,que foi como achei a tua.