domingo, 8 de março de 2009

Sem-nome

O anonimato é tentador em muitas situações, desde desabafar sobre um momento ruim até criticar algo que incomoda. Escrever, opinar e apontar defeitos ou qualidades sem medo e sem consequências me deixa com água na boca. O único porém dessa liberdade é, quando o assunto é relevante, a ausência de nome para defender o argumento o deixa sem valor; como a minha professora diz, anônimo é só admirador secreto e terrorista. Sem dúvida, se eu fosse escrever tudo aquilo que preciso, eu seria covarde demais para assinar; portanto, eu fico calada.


Texto para a Revista Capricho, ed. 1066

6 comentários:

Mário Cau disse...

É, muitas vezes não ter nome ou rosto facilita a vazão de certas coisas.
Mesmo quando elas são (no meu caso) imagens, e viram invariavelmente, um rosto.

Um artista tem a cara de sua obra...

Bjo Sis!

Marina disse...

Nossa, esse anonimato que me persegue!!

Mas eu vejo as coisas um pouco diferente, penso que você não precisa nem se calar totalmente, e nem sair por aí falando TUDO o que te agrada ou não! De qualquer modo, falar ou escrever ALGUMA COISA, QUALQUER COISA sincera e que vem de dentro com seu nome assinado embaixo, já é um atestado de identidade!

Beijo enorme amore!!

PS: livro chegou!

Anônimo disse...

Dizem que uma arte sem nome é uma arte sem prestígio, pois não há referência de caráter de quem fez. Eu digo que isso é besteira, pois a arte, no final das contas, está na nossa absorção dela. Então te pergunto uma coisa Mariana: um texto crítico, verdadeiro e não-reacionário, é menos por não ter um nome, ou nós seríamos menos por deixar de absorvê-lo, nos escondendo por trás do fato dele não ter o tal nome, como desculpa para ficarmos na mesma?
De fato, em algum momento, alguém deverá mostrar sua identidade, mas não porquê há uma necessidade de dizer se tal pessoa tem ou não moral para falar de algum assunto ou qualquer coisa deste tipo, mas porquê, numa expressão não-reacionária, alguém tem de sofrer no final para que o precesso de compreensão sobre o opressor em pauta seja absorvido perfeitamente.
Estou anônimo aqui, mas você sabe quem eu sou, não?

Abraço Guerra!

Marina disse...

Anônimo, vou me intrometer no assunto sem permissão, mas, na posição de quem teve de lidar com o anonimato há pouco tempo atrás, me sinto no direito de fazer uma réplica ao seu comentário!

Um texto anônimo é um texto raso, pelo simples fato de impedir a troca entre o autor e seus leitores! Não importa o tipo de texto, pode ser "um texto crítico, verdadeiro e não-reacionário", uma declaração de amor ou qualquer outra coisa, se for anônimo a comunicação é feita por uma só via, não é mão dupla, e chega a ser uma espécie de poder, inclusive. Por exemplo agora. Estou lhe respondendo aqui, no blog da Mariana, pois você está anônimo e inatingível, e só terá acesso a esse comentário se por acaso resolver entrar aqui novamente para reler seu texto... O poder está nas suas mãos!
O fato de uma identidade ter que surgir em algum momento não tem como finalidade a opressão, repressão ou punição e sim assumir a responsabilidade por suas palavras, seja recebendo críticas, seja recebendo os louros, o prestígio! A identidade é importante sim, pois comparar as palavras com as verdadeiras atitudes de quem escreveu é imprescindível para a validação do texto, sem dúvida. E, no caso de uma declaração de amor, a identidade é indispensável para a realização ou não desse amor, é indispensável para que esses desejos saiam da fantasia e adentrem a realidade, independentemente do desfecho. Se o anônimo não quer sair do anonimato por medo de que esse desfecho seja diferente do já previamente fantasiado, ele também perderá a chance de que tudo dê certo... Mesmo assim continua vivendo no mundo das ilusões!
Entretanto, no meu ponto de vista, mais importante que um nome é o canal de comunicação! Se preferir, continue anônimo, mas mantenha a troca! Através da troca as mudanças se consolidam e as pessoas aprendem novos pontos de vista!

Creio que já escrevi além do estritamente necessário!

Abraços anônimo,

Marina!

Marina disse...

Realmente escrevi demais! Desculpem, me empolguei!! =)

Anônimo disse...

Então Marina, se uma pessoa que utiliza de nomes fictícios ou o próprio anonimato total te dizer, eja lá através de qual mídia, algo fantástico, que você entenda a energia e potencial de mudança existente dentro das palavras desta pessoa, mas no instante seguinte descobrir que ele é uma pessoa paradóxa ao que diz, então tudo o que foi dito perde seu poder, e você continuaria imutada, a espera de alguém que siga plenamente suas próprias palavras para te servir de exemplo (apenas hipótese, não estou dizendo que você está nessa espera ou que precise desse alguém)? Então sinto te dizer que esperará sentada, afinal não sei se percebeu que em nosso sistema de vida, seguir plenamente palavras de harmonia e sabedoria, se iguala a não viver aqui ou morrer aqui sem viver. Pense um pouco em parar de associar idéias a imagens físicas. Ajuda a não se prender numa eterna espera por uma pureza que na verdade, minha querida, é utópica por aqui. É como dizem aos veganos, por exemplo: se você quer ser realmente vegano, ou seja, não viver com nada que venha a prejudicar a vida animal, então saia daqui e viva na mata. Mas ai te pergunto Marina: como esse vagano poderia continuar criticando seu opressor sem estar em contato com ele, afinal ele perderia contato, logo, entendimento do seu discurso. Não existe pureza nos atos, então de que serviria essa associação entre idéia e imagem física?
Mais uma coisa, não exercí poder algum, afinal não para nas palavras de uma só pessoa um debate, elas são apenas um começo que deve ser continuado por muitos, sem necessariamente voltar a ter seus iniciais integrantes de volta à roda, pois mais uma vez eu te digo que a força não está na imagem de quem joga uma idéia, e sim na idéia em si, logo, as pessoas não estarão aqui por estes integrantes iniciais, ou pelo menos não deveriam, mas pelas suas palavras, o que não estanca o poder a ninguém, apenas dá uma primeira centelha para seu crescimento.
Quando eu disse que em algum momento alguém tem de assumir uma identidade, é exatamente para o que você mencionou, ou seja, assumir responsabilidade, para fins de ser punido e servir de exemplo de como atua o opressor de uma determinada situação, que no fim tenho achado que é o mesmo de todas as situações, mas ai já é outra história. O problema é que o opressor nunca é burro, e sabe que punir criaria um mártir, o que poderia acarretar numa tolerância deste opressor para com seu inimigo, fazendo as pessoas acreditarem que ele é bonzinho e benevolente. Enfim, deixa isso um pouco pra lá, eu gostaria de focar no anonimato mesmo.

Abraço Marina, e quem sabe não nos encontramos no S.B. um dia desses?