terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ilha do Cardoso - apenas o primeiro dia

Os morros, a neblina entre eles e as nuvens atrás formavam várias camadas de morros. Foi ali que o Sol começou a dar as caras na quarta-feira de manhã. Eram cinco e meia da manhã e eu havia dormido apenas uma hora durante a viagem, ouvindo Tom Jobim. Estava no O Fazendeiro, comendo uma pão de batata com catupiry, enquanto todos começavam a acordar, ansiosos para chegar em Cananéia, ainda faltava duas horas e meia. Enquanto o ônibus atravessava quilômetros de estrada margeada por bananeiras(nunca vi tantas juntas em toda a minha vida), meus olhos ficaram pesados e cochilei por mais uma hora.
Cananéia era uma cidade pequena e charmosinha. As construções mais altas eram sobradinhos. Tomamos café da manhã na Pousada do Cardoso, comi apenas dois pedaços de bolo e uma banana, achando que aquilo daria conta até chegar na pousada. O ônibus seguiu até o pir, pude observar as outras casinhas, mais charmosinhas, todas coloridas. O canal era lindo, água azul rodeada por mata virgem e morros; entramos na escuna(eu, com medo de cair) , Lua Cheia V, seguimos por mais de duas horas no canal. Tudo era lindo, eu consegui me acostumar  com o fato de estar em um barquinho, sentei na “janelinha” e, com sol batendo no meu corpo, observei toda a mata atlântica preservada.  No caminho encontrávamos bolsões de areia e mangue.  Consegui ver um sambaqui, era um amontoado de conchinhas que, de longe, parecia uma areia inóspita. Em um momento o sinal de celular se extinguiu, não havia mais como mandar sms para a minha mãe dizendo como era tudo.
Chegando na comunidade do Marujá, colocamos nossas malas na pousada e fomos almoçar(o café da manhã era apenas uma faminta lembrança). O almoço era simples: arroz, feijão, beterraba, cenoura, alface, acelga, tomate, pepino e peixe frito(que eu recusei, por ser vegetariana).  Após o almoço todos foram para a praia, menos eu e a Ana, preferimos nos jogar na cama. No final da tarde, encontramos nossos monitores, a Camila e o Gelson, para conhecermos o núcleo de visitantes, apenas mil turistas podem permanecer na Ilha ao mesmo tempo, se exceder um, esse um volta para Cananéia, dessa maneira eles evitam a degradação do parque estadual. Era tudo muito simples, casas pequenas e rodeadas por arbustos, a maioria não tinha cerca(as que tinham, eram baixas). Voltamos pela Praia do Marujá, fui fotografando o lixo que a maré trouxe, várias garrafas, chinelos e embalagens de miojo. Era triste pensar que uma reserva ecológica inocente recebe lixo de todos os tipos de embarcações, de todas as nacionalidades. Encontrei embalagem de miojo árabe e tailandês, várias de Qualy Cremosa, algumas de camisinha, o lixo mais duro e resistente dava lar a mariscos e algas.
Assim que chegamos na pousada, anoiteceu e o gerador foi ligado. Tomei banho no banheiro de um metro e meio por um metro e meio, inteiro sujo, pois as meninas já tinham o molhado todo e eu havia entrado com o chinelo sujo de areia. Me secar foi muito agradável, porque não tinha lugar para fazer isso, me vestir foi ainda mais cômico. Prefiro nem comentar muito sobre todo o malabarismo que eu fiz. O jantar foi servido: arroz, feijão, beterraba, cenoura, alface, acelga, tomate, pepino e peixe frito. Tentei ligar para a minha mãe, mas a dona da pousada disse que ele estava sem linha e o telefone comunitário já tinha fechado; voltei para o quarto para pegar qualquer coisa, peguei o celular e mandei um sms escrito “Wish you were here” para meu namorado, não foi enviado, claro, mas aquilo me fez chorar, apenas vinte e quatro horas e eu já estava com saudade de tudo. Saudade dele.
O Cláudio, outro monitor, fez uma palestra sobre os tipos de animais que podem ser encontrados na Ilha e mostrou fotos de várias trilhas, a maioria era do Perequê, a parte da Ilha mais próxima do continente onde se encontrava o alojamento estadual e o museu(que estavam em reforma, portanto não nos hospedamos lá). Fomos dormir perto das onze horas, todas cansadas. Minha cama era a parte de cima da beliche, a qual eu tive medo de dormir, porque ela balançava toda quando eu me mexia e não tinha um guarda corpo, coloquei meu tênis, pulei de lá e coloquei o colchão no chão, com uma ponta para baixo da cama da Ana. Deitei e descobri a triste realidade: meu cobertor cheirava a miojo de carne. De madrugada esfriou e eu tive que me cobrir com ele até o pescoço...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Cochilar ao seu lado poderia ser melhor

A pele dele, coberta por uma fina camada de calor. Coberto por uma manta. Com os olhos cobertos. A janela encoberta. Meus olhos abertos.
Uma simples enfermidade era um motivo a mais para observá-lo. Sentir sua pele chegando aos quarenta graus não era nada agradável. Minha visão coberta por uma grossa camada de preocupação.
Meu coração não batia. Culpa daquela camada espessa de amor.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Cronograma

A linearidade cronológica sempre existiu dentro da minha cabeça. Tudo seguindo suas razões, seus motivos e seu tempo. Era estanho pensar que uma pessoa tão sentimentalista procurasse razão em tudo. É antagônico! Eu deveria procurar somente a emoção em tudo. E quando tudo aquilo desmoronou eu só pensei no futuro. Toda a linearidade do futuro se rompeu.
Eu sei que é idiota ter um plano tão bem detalhado. Me acostumei com as pequenas e contornáveis dificuldades. É só buscar um novo caminho. Mas, dessa vez...
No mesmo instante que eu decidira minha nova escolha, minha nova realidade foi jogada na minha cabeça. Meu novo futuro. Desde então eu larguei essa necessidade de planos. Sim, é melhor. Foi preciso um grande susto para perceber isso. Por enquanto são as escolhas, a seleção das opções; deixe as decisões pra mais tarde.

domingo, 8 de agosto de 2010

Até os grandes poetas pensam muito antes de escolher as palavras. Eu posso temer o mesmo objeto oculto.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Sin

Eu gosto de ver pessoas e animais dormindo. Para você ter uma idéia, o melhor momento que eu tive com um cara que eu, por fim, acabei amando, eu estava deitada de frente para ele, a gente apenas se olhava. Não nos beijamos durante alguns minutos. Só nos prendemos num olhar incessante. Eu chorei, singelamente, apenas lacrimejei, só de olhar para ele e perceber a imensidão de tudo aquilo.
Te ver dormir foi mais precioso que te beijar e estragar aquele momento calmo. Observar você foi muito pessoal. Dependia só de mim. Eu podia pensar muito sobre tudo aquilo. Não havia interação atrapalhando. Eu apenas sentia aquilo e tentava entender.
Eram meu tato, minha visão, meu olfato postos naquele contexto. Não o nosso paladar.
Meu maior desejo sexual é você. Eu pude senti-lo da forma mais singela e calma que eu gosto, dormindo. Você era irracional. Se espreguiçava, segurando minha mão. Roncava. Respirava, respirava, e, respirava, fora de ritmo, porém, tranquilo. Tremia o lábio em alguns momentos.
Meu maior medo é me apaixonar por você. Eu nunca achei lindo um ronco. Nunca apreciei o mau hálito matinal. Passei boa parte da noite insone, te olhando, te ouvindo. Era enlouquecedor pensar em você ao meu lado. Eu dormi, por poucas horas, nos teus braços.
Minha pele roçava no teu peito nu, sentia queimar. Nossa pele parecia incompatível. Como se a tua secretasse algo que fizesse mal a minha. Nunca me senti tão febril sem exercício físico ou doença.
Você se tornou a minha enfermidade. Vendi minha alma por uma noite. Eu te toquei. Apesar de tudo, quis te beijar. Eu li o pecado diversas vezes na tua pele. Aquilo doía na minha retina, na minha consciência. Você dispôs sua boca há ridículos centímetros da minha, olhei-a. Um avermelhado desbotado.
Até poucas horas antes você era um ser intocável. Todo meu sentimento era platônico. Você era perfeito, posto sobre um pedestal, ao qual eu jamais alcançaria. Alto demais para a minha simplicidade.
Você derrubou aquele pedestal ao me tocar. Invadiu minha zona de conforto, furou minha bolha de isolamento. Você penetrou minha alma até sangrar. Eu não posso tê-lo, mas você estava, inocente, frágil e dócil, dormindo.
A falsa imagem que tinha de você era polida. Você era irresistível, simpático, ideal. Irreal.
Ao passar de uma noite você se tornou humano. Fumante. Sedutor. Traidor. Macio. Eu logo pus sua humanidade num patamar alto. Você era humano e tocável. Seus defeitos eram belos.
Eu não te conheço. E jamais poderei tê-lo.
Quando você me abraçaria, me fitaria, me quereria daquela maneira? Quando você dormiria profundo ao meu lado?
A qualquer momento. Mas jamais seria um momento verdadeiro.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Tentando dizer sentimentos desconhecidos

Sua pele era alva, marcada por várias pintas marrom-claro. O olhar era de um turquesa tão tranquilo que transpareciam suas intenções. Os lábios era coloridos por um alaranjado desbotado, harmônico. Os pelinhos da barriga eram loiros como seu cabelo. Conforme ia percebendo estes detalhes, eu sorria. Nunca vira nada igual assim tão de perto. Podendo sentir seu cheiro amendoado, tocar sua pele morna. Segurei sua mão, nossa pulsação destoava(ele calmo e eu alterada).

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Cetro

Mas se nós, que somos os reis da natureza, não havemos de ter medo, quem há de ter?


Clarice Lispector

terça-feira, 20 de julho de 2010

Um degrau acima

Até hoje não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente, até que de repente a descoberta muito tímida: quem sabe, também eu poderia não escrever. Com é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável.

Clarice Lispector

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Testamento

Em algum lugar, na amplidão do espaço de meus sentimentos, emerge uma inquietação, uma contrariedade, lamentos que não compreendo sopram em minha direção, levantam-se ameaças em meu ser: já não me sinto concorde comigo mesmo. 


Rilke

domingo, 18 de julho de 2010

Doce

Ele acendeu um cigarro. Eu andei, descalça, até a garagem, onde ele estava. As nuvens cobriam o céu, eram seis da manhã e queria ver o Sol nascer. Ele concordou que teriamos um dia cinza pela frente. Olhei para as suas costas, um grande dragão vermelho tatuado perto de seu ombro direito. Sentei ao seu lado e ele me mostrou suas duas outras tatugens. Meus pés tocavam o chão frio, mas eu não me importava com a temperatura. Vinte e quatro horas insone, tudo parecia diferente. Ele tragava enquanto conversava, porque o cheiro do seu cigarro era mais doce do que eu estava acostumada?
Ele olhava para mim como se eu realmente exstisse. Ria como se palavras realmente saissem da minha boca. Disse que estava frio demais para ele. Eu fiquei ali, olhando cinza e preferindo a realidade do frio a estranhesa do calor entre nossos corpos.

sábado, 10 de julho de 2010

High School

Nos últimos três anos, eu só pensava em me formar. Em largar a escola, largar essa cidade, deixar de ver as mesmas pessoas todos os dias e até largar minha família. Ir para uma cidade maior e fazer faculdade. Mas, as coisas são sempre assim, chega o último semestre e é triste fazer essas coisas pela última vez. Eu sei que é a última vez.
Dá vontade de ficar de rec pelas últimas vezes na minha vida. E eu vou ficar de Bio só pelo gostinho dessa última vez,  e é a única que eu recuperaria(e não me sentiria mal em passar por uma rec). Eu sinto vontade de voltar para o primeiro ano e fazer tudo de novo, porque aquilo tudo era tão fácil.
Ei, meu impasse era escolher o livro da vez na biblioteca, que eu iria fazer na sexta-feira, quem era o cara mais gato do ensino médio.
Assistindo ao último episódio da terceira temporada de Gilmore Girls, vendo a Rory com sua beca, seu diploma. Olhando para Chilton pela última vez. Eu sei que em seis meses aquela será eu, sentindo falta do que eu sempre quis que acabasse logo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Eu sempre gostei de açúcar

Açúcar e seus derivados. Tudo que fosse adocicado, de perfumes a gostos. Tudo que contivesse açúcar. Ou chocolate.

Doce decepção.
Doce ilusão.
Doce tristeza.
Doce. Não uma decepção amarga. Não uma ilusão salgada. Não uma tristeza picante.
Só doce.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Que bom te ver

Ele pegou minha mãe e disse: "que bom te ver". Vindo de um desconhecido, um desconhecido bonito, o qual tinha os olhos semi-mascarados por um cabelo sedoso, era um bom sinal em pleno domingo de eleição. Sorria como nunca vi alguém sorrir. Pediu que eu o esperasse, entrou em alguma loja. Sentei na mureta da vitrine e me perguntei "o que é isto? Quem é ele?". Saiu da loja com uma sacola de papel, me puxou pelo braço e correu pela rua comigo. Sua urgência pelo que eu desconhecia era animadora. Descemos escadas, subimos outras.
Abriu uma porta, era uma casa. Adentramos. Ele pôs a sacola em minha mão e indicou um cômodo apertado. Me fechei no reservado. Seja o que for, está divertido, pensei. Na sacola havia um vestido colorido por fitas trançadas, detalhes de renda em flor, vesti. Coloquei uma pulseira de contas vermelhas que encontrei.
Espiei pelo buraco da fechadura, ele sentara no sofá, a minha espera. Abria a porta para aquilo que desconhecia, com fitas e cores em meu entorno. Porque ele só sabia sorrir?


Sonho do dia 15 de maio. Sonhos não fazem sentido, às vezes...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

I don’t care

Sério, não ligo mesmo. Você pode passar por cima do meu orgulho, da minha paixão, da minha força de vontade, do meu interesse, da minha vida. Você pode sair com outras, tratá-las da maneira linda como você me tratava, eu sei que você é mestre nessa ladainha.
Você é um Dom Juan com muito potencial. Você merece todas as garotas do mundo. Assim você engana todas elas e acaba sozinho.

posted in mariguerra

sábado, 22 de maio de 2010

Cólera

Eu aprendi essa palavra em um mangá, achei estranho a personagem falar que um garoto estava com cólera, só de olhar para o rosto dele. Procurei no dicionário e entendi que cólera não era só uma doença. Hoje eu sei o que é essa palavra, é a que mais descreve.
Cólera.
Eu tenho que entender que a Summer não é cem por cento boa. Ela tem suas partes ruins. Ela tem várias partes ruins. Ela enganou o Tom. O Tom era só o segundo dela. Ela esmigalhou os sentimentos dele. Passou por cima deles.
Sei lá se ela fez por mal ou nem reparou. Não importa, isso não se faz.
Hoje uma pessoa contou toda a história da minha vida. Mas não era minha história. Era a história dela.
Perceba, ela sentiu o que eu senti. O que tem dentro de mim não é novo, autêntico, ímpar, singular, subjetivo.
É a mesma merda que uma outra pessoa já sentiu.

Então todo os meus vários dias com ele pararam de ser cor de rosa. Ou de qualquer outra cor. Ganhou uma cor com um nome específico(ao menos isso é singular). O nome dessa nova cor é cólera.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

(500) days of summer

"Divertido, verdadeiro e deliciosamente surpreendente, este olhar único e hilário sobre paixão, namoro, sexo e separação vai alegrar seu dia" (sinopse atrás da caixa do DVD)

"hilário". Percebeu? Não é hilário! Sofrimento(suffering) não é hilário. Pode parecer, quando você não viveu algo parecido. So much suffering. Concordo que é único. Mas não hilário.
Um sentimento desse é exageradamente singular.
Eu saí daquele filme com uma iluminação boa em tudo que via na rua. Senti por não ter minha câmera. O sol era tão terno em um dia tão frio. A névoa de chuva beijou toda a face da cidade, um longo beijo, que durante toda a manhã.
A fotografia do filme é incrível. Tudo parece retrô, vintage, antiguidade. De repente, alguém aparece jogando Wii, ouvindo The Smiths no computador.
Não é trágico, mas não é hilário. É somente real. "Real" é uma palavra que funciona no português, no inglês e... aí acaba o meu conhecimento em línguas. Dizer "real" talvez ultrapasse o sentido de dicionário e te faça compreendê-lo. Talvez.
Eu nunca senti o que outros filmes retrataram. Mas já senti 90% de "(500) dias com ela". 10% foi o novo primeiro dia com um novo alguém.
E eu não somente digo isso porque sou azarada com relacionamentos. Eu só sinto demais. Eu devo sentir o que ninguém sente. Porque sentimento é pessoal, ninguém sente igual.
Ninguém observa a parte superior das fachadas, eu amo as casas dos anos 50 no Brasil. Eu escrevo no ônibus. Eu saí daquele filme tentando compreender as coisas, os meus vários dias com ele. Saiba, não é hilário.
Eu senti uma urgência. De copiar o filme, colocar na caixa de correio da casa dele e fazer ele perceber, eu senti isso. Uma urgência. Me fez desfazer meu caminho e seguir outro, olhando a fachada das casas e o céu.
Eu céu tão terno, misturando-se com uma cor que beirava o calor.
Não é hilário, é real.
Agora, por favor, não diga que você sentiu isso, se não meus vários dias com ele jamais farão sentido.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ainda, ainda, ainda

Ela olhou. Seus olhos vibraram em seu contorno.
Seu calor ainda é o que a cora.
Seu perfume é o deleite.
Sua voz é a aveludada.
Ele é.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A música que poderia ter tocado

Teu sagrado e tua besteira
Teu cuidado e tua maneira
De descordar da dor
De descobrir abrigo entre tanto amor
Entretanto a dúvida
A música que casou
Um certo surto que não veio


Há uma alma em mim,
Há uma calma que não condiz...
Com a nossa pressa!
Com resto que nos resta
Lamentavelmente eu sou assim...


Um tanto disperso
Às vezes desapareço
Pois depois recomeço
Mas antes me esqueço


Nossa sina é se ensinar...
A sina nossa é...

Minha senhora diz:
Bons ventos para nós
Para assim sempre
Soprar sobre nós...


Apoei a cabeça em seu ombro, minha mão esquerda abraçava seu braço, meu outro braço descansava em seu colo. Meus receptores olfativos degustavam o seu perfume amendoado. Ouvia aquela música no piano e a respiração.
Dormir poderia até acabar com o clima. Mas dormir ali era tão bom...

domingo, 4 de abril de 2010

Blinding Night

Quanto mais eu vivia, mais eu aprendia. Conheci o calor e a intensidade. 
Enquanto a música tocava eu apenas vivia.


And I miss you when you’re not around
I'm getting ready to leave the ground

Ooh ooh ooh
Ooh ooh ooh

Oh you look so beautiful tonight
In the city of blinding lights

Time time
Won't leave me as I am
But time won't take the boy out of this man

Oh you look so beautiful tonight
Oh you look so beautiful tonight
Oh you look so beautiful tonight
In the city of blinding lights

The more you know the less you feel
Some pray for others steal
Blessings are not just for the ones who kneel luckily

segunda-feira, 29 de março de 2010

Manifesto da Poesia Pau-Brasil

Foto antiga que inaugurou uma fase antiga da minha vida, marcada pelo meu fotolog.
Eu ainda tenho esse macacão e essa blusa, que uso para dormir.
Assim que tirei essa foto, bocejei e tirei outra. Minha amiga olhou essas fotos e as achou estranhas.
Porque a estética tem que ser "bonitinha" em tudo?
Peguei a tesoura hoje a tarde e cortei meu cabelo. Funcional, fresco e não muito estético.
Qual o problema disso?

É verdade, às vezes o modernismo não é tão chato.
Você só tem que saber olhar tudo de um jeito diferente. Sempre.

sábado, 27 de março de 2010

Sinto falta

Eu sei que sou uma pessoa terrivelmente diferente. Mas eu espero te encontrar hoje no trabalho. Só para poder te olhar.
Eu ainda penso em você quase todos os dias. Eu ainda quero saber de você.
Eu ainda te amo, tenho certeza disso.

E você ainda está com a revista que eu te emprestei.


Sinto falta do seu cheiro

Aroma

É bom acordar aos sábados e saber do longo e cansativo dia que me espera. Parece que o sábado salva minha semana, é o dia em que eu realmente faço alguma coisa. Coloco o avental, anoto no bloquinho, pego copos, levanto bandeja, sorrio, sorrio, sorrio. E rio pra caramba com a galera do trabalho.
Ei, eu trabalho. Anos querendo ter essa experiência e hoje eu tenho.
Hoje eu tenho que ir trabalhar.

terça-feira, 23 de março de 2010

Muita televisão

Ontem eu descobri um seriado legal no Boomerang, chama "A Galera da Lei". Uma escola tem um tribunal de alunos que funciona como um de verdade, só que todos os julgamentos são feitos com os mesmo advogados, a mesma juiza e o mesmo meirinho.
Um dos advogados é o Coop, um cara loiro, com boas notas, bonitinho, um filho exemplar, um irmão mais velho maneiro e, principalmente, um cara sincero e fiel. Geralmente ele defende os alunos inocentes, sei lá, coisa do roteirista, então ele nunca perde uma causa.
É pedir demais um Coop pra mim???

domingo, 21 de março de 2010

Arroz

Eu juro que usei duas xícaras de água para uma de arroz. E não deu certo.
Receita não serve para todas as pessoas. Algumas pessoas não precisam de receita pra conseguir fazer dar errado.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Adultecência

Hoje de manhã, apagando a luz do meu quarto(vejam bem, eu acordo antes do Sol), eu pensei no meu medo de adultecer. Quando eu tinha meus doze anos eu não via a hora de fazer quinze. Burrice minha, admito. E agora eu tenho medo de fazer dezoito(isso porque nem dezessete eu fiz), pois, ao completar essa idade, eu serei cada vez mais inserida na adultecência. Sim, eu sou uma pessoa bem anciosa.
Eu acho chato virar adulto. Sabe aquela coisa de trabalhar de manhã e a tarde, pagar o aluguel, lavar a própria roupa... ou pior, pagar uma empregada! Não tem nada pior que virar adulto.
Eu sei que é maravilhoso deixar de dar satisfação para os seus pais, controlar seu próprio dinheiro, se vestir como quiser, assumir sua sexualidade e coisas assim. Mas, pensa, virar adulto implica em não fazer mais festas do pijama, não deixar as coisas pra depois quanto estiver cansado.
Tenho medo de virar adulta, pagar o aluger do meu apertamento, esquecer de lavar minha própria roupa(e ficar um mês sem usar aquela malha preta só porque está suja), comer comida congelada(hamburger de soja, nuggets de legumes, lasanha de queijo).
É duro deixar mamãe de lado. Ela que lava minha malha preta, ela que cozinha pra mim(porque eu não sei nem fazer arroz, só macarrão), ela que paga o IPTU, o gás, o telefone, a energia elética.
Parabéns pra quem tem coragem de deixar a mamãe. Infelizmente um dia eu vou ter que adultecer e aprender a cozinhar arroz.

quarta-feira, 10 de março de 2010

História velha

No primeiro ano do Ensino Médio, minha professora de redação(que era uma fofa e sempre usava um All Star vermelho) passou um poema para nós trabalharmos com interpretação de texto, Velha História, de Vinícus de Moraes. Ela sentou na mesa, de frente para nós, e ditou:

 Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias…
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte


Ela dava apenas uma aula por semana, então não terminou e deixou para a semana segiunte. Nós continuamos o trabalho, a turma estava impaciente, ninguém gostava de ditado, ditado é tão... terceira série! Mesmo no meio de resmungos, ela continuou:
 
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.


 E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.


 O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.


Ao proferir a última palavra, a sala, em uníssono, gemeu um "ah, não acredito, você ditou isso tudo para o cara voltar no final?". Ela riu e esperou a sala se acalmar. Escreveu três questões na lousa: 
1) O que são os caminhos do poema?
2) Porque o homem voltou?
3) Justifique o título do poema.
Os "caminhos" do poema nada mais eram que as escolhas que nós fazemos. Pensando bem sobre o cara, ele havia escolhido o caminho aparentemente mais fácil, mas durante o trajeto ele percebeu que não era bem assim.
Se a nossa professora tivesse entregue o poema impresso para nós, jamais lembraríamos disso. Ela escolheu o caminho mais difícil, mas valeu a pena.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mônica, a do Maurício, não a do Friends

Não só na minha infância, com na de várias pessoas, a Turma da Mônica foi marcante. Nesses últimos dias tive um motivo especial para lembrar dela, o Mario Cau foi convocado a homenagear o tio Maurício de Sousa, leia mais clicando aqui. Aliás, parabéns mais uma vez.
Eu me lembrei de muito tempo atrás, quando eu tinha 7 anos e tinha acabado de aprender a ler. Imagine a alegria de uma criança nessas condições quando ganha seu primeiro gibi e consegue lê-lo inteiro. Quando isso aconteceu comigo, eu me apaixonei pela Turma da Mônica. Eu lia compulsivamente. Minha tia se divertia e comprava mais gibis. Ela dizia que eu tinha o dom para a coisa.
Certo, cá estamos. Eu continuo lendo compulsivamente e almejo ser escritora.
Apesar de não ler mais os gibis, nem ter lido a Turma da Mônica - Crescidos, assistir Friends compulsivamente e me divertir com a Monica, ainda tenho a maior admiração pelo Maurício, pelo que ele fez comigo. Tenho orgulho do meu passado, eu era leitora de gibis.
Isso me fez lembrar de quando eu comecei a escrever. Os motivos eram tão bobos. O que eu escrevia era tão bobo. Mas eu sinto falta daquilo, quando não tinha a cobrança, nem o desejo de fazer isso bem.
Hoje tem cobrança, mas é aquela cobrança boa...
Escrever nunca me causou a mesma sensação sempre. No começo era curiosidade. Teve vezes que foi por prazer, outras por necessidade. Confesso, outras por obrigação. Mas sempre foi bom. Na verdade, é cada vez melhor.

sexta-feira, 5 de março de 2010

—Um espresso duplo, por favor

Por favor, leia este post como se ontem fosse hoje, certo? Imagine a pessoa que você era antes de dormir essa noite lendo isto.

Eu adoro quando as minhas quintas parecem sextas. Hoje eu até esqueci que amanhã tem aula de x, y e z e a turma combinou de usar roupas bregas. Quintas quando eu não me preocupo com o horário. Há muito tempo não tinha uma dessas.
Confesso, corri atrás de algumas coisas para a formatura, mas foi tão pouco e tão satisfatório. Hoje eu meio que libertei meu passado, joguei fora a Mariana antiga com quem estava tão acostumada. Eu gosto de mudar, eu estava precisando da minha atualização periódica.
Essa coisa começou na quinta passada. quando saí para comprar sapatos com a minha mãe. Ela me escolheu uma sandália com um salto diferente, olhei torto. Eu achei um sapat boneca de couro branco com um detalhe em cobra, não era o que eu usaria. Mas deixei minha mãe levar.
Hoje o detalhe de cobra e o salto meio quadrado sou eu.
Ano passado pensava que eu existira durante o terceiro colegial e tudo acabaria muito rápido. Hoje eu quero viver o terceiro colegial, me formar e me vestir de brega amanhã.
Essa tarde foi uma boa porque conversei com gente que há muito tempo não via. Eu deixei aquele meu preconceito de "histórias antigas". Foram histórias sem fim que me marcaram negativamente. Eu conversei com o fotógrafo e com a empresa de convites. Tomei um café com o escritor.
Eu achva que ser o passado de alguém me tornava persona non grata. Hoje foi diferente. Eu sou bem vinda. E, mesmo que não fosse, mostraria para esse alguém que estigmas devem ser quebrados. Afinal, eu quebrei, destrui e queimei o meu. Posso provar, meu cabelo e minha roupa estão cheirando a cinzas.


Sim, hoje eu fui à escola vestida de brega. Mas isso é história para mais tarde...

quarta-feira, 3 de março de 2010

Virando bicho

(Sim, é virando bicho com "ch", e não com "x", entenda o porquê)

Eu acordo todo dia às 5h40 da manhâ, pego vinte minutos de ônibus e ando mais quinze. Sabe para quê? Para supostamente estudar e supostamente passar em uma faculdade pública. Eu sei que é o que os nossos pais esperam da gente depois de pagar 11 anos de escola. Mas e a nossa vontade? E a nossa vontade de dormir até mais tarde e assistir Mais Você durante o café da manhã? E a vontade maior ainda de acordar mais tarde e só almoçar, assistindo o Jornal Hoje? 
Eu viro bicho porque eu não me encaixo na minha sala. Eu acho que a turma é tão inexperiente que tudo eles têm que perguntar: "isso cai no vestibular?". Eles são tão inseguros que não conseguem fazer uma prova sem estudar uma hora no dia anterior.
Não estou querendo me gabar, juro! Eu só quero desabafar. 
Eu sei que a melhor forma de treinar para o vestibular é assistir a aula e fazer a prova sem estudar. Assim você sabe até onde você chega.
Às vezes eu não quero virar bixo, ou melhor, bixete. Talvez eu prefira ser apenas um ser humano comum, sem zoomorfismos. Todo mundo precisa viver um pouco, viver a própria vida, e não simplesmente existir no meio de apostilas.
O que me deixa um bicho mesmo é ver a oportunidade de viajar para a Ilha do Cardoso em outubro e ouvir a desculpa de uma colega: "eu vou precisar desses quatro dias para estudar para o vestibular".
Eu só quero viver. Eles que virem bixo...

terça-feira, 2 de março de 2010

Precipitações

Coloquei meu pijama de flanela, meias e prendi meu cabelo. Fiz chocolate quente com gengibre e laranja. Sentei no sofá e deixei a tv em um canal qualquer. As nuvens cinza eram atraentes. A temperatura estava amena. A chuva não parava.
Olhando para aquilo que podeia ser chamado de "dia feio", pensei nos meus arrependimentos, principalmente no de ontem. Eu me arrependia de ter terminado com ele há 2 anos. E se eu não tivesse o feito, como as coisas teriam acontecido? Fechei os olhos e imaginei.
A minha formatura de ensino fundamental teria sido ao lado dele, dançando com ele. Eu teria sempre alguém para me ajudar com os problemas, talvez eu não mudasse de escola. Eu não teria conhecido o Bernardo nas férias de inverno. Eu não teria me apaixonado por Bernardo. Eu teria comemorado um ano de namoro do melhor barzinho da cidade. Eu não teria me interessado por arte e museus se eu não tivesse conhecido Bernardo. Eu teria passado os reveillons com ele. Eu não teria ido sozinha em tantas festas. No meu aniversário eu não teria ligado para o Bernardo só para pedir um beijo de parabéns. Ao invés de alugar tantos filmes nos sábados, eu teria saído com ele. Eu não teria viajado tanto nas férias de inverno. Eu não teria passado tantas noites olhando o perfil do orkut do Bernardo. No nosso segundo aniversário de namoro, nós pediríamos pizza e passaríamos a noite na casa dele.
Abri os olhos e encarei a chuva. Seriam dois anos maravilhosos. Mas eu não imaginava uma vida sem conhecer Bernardo. Se não tivesse o conhecido, então eu me arrependeria. Mas, eu me arrependo de ter terminado com ele também. Até hoje não me apareceu um bom motivo para me considerar precipitada a respeito disso. Mas talvez eu queria um.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Tudo acontece nos supermercados...

Se arrependimento matasse, eu não teria chego aos 16 anos. Mas arrependimento sempre deixa aquela sensação esquisita que acomete a gente quando menos esperamos. É só termos algo para lembrar. O arrependimento me deixou pensativa naquela tarde, me deixou olhando as marcas de shampoo para ocupar a minha cabeça com alguma coisa que não ele. Naquela tarde no supermercado o encontrei e, como se nada tivesse acontecido entre nós, dissemos um oi que durou 3 segundos, até ele virar no próximo corredor e continuar seu trabalho.
Não foi a primeira vez. E eu ainda não tenho resposta para a pergunta que formulei quando havia escolhido o shampoo de camolila, porque eu terminei com ele? Ele era maduro e divertido, eu simplesmente achei que estava chata e não dei nada para nós. Porque eu fui tão estúpida de ter terminado com ele?
Como eu disse, se arrependimento matasse, se o arrependimento de ter terminado com ele matasse, eu teria morrido com apenas 14 anos.
 Eu quero ter cada vez menos motivos para me arrepender. E quero ter nenhum motivo para morrer.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Comum

Começo a achar que estou perdendo minha identidade. Não passo mais meus intervalos lendo em algum canto da escola. Estudo antes das provas e faço todos os exercícios da tarefa. Assisto Friends diretamente da Warner. Uso a internet normalmente. Troco SMS loucamente com meus amigos. Eu brigo com a minha mãe por bobeira. Eu fito o garoto do outro lado da sala como se ele fosse o único da escola.
Essas normalidades estão me deixando meramente comum. Ser comum atrapalha para escrever.
Preciso lembrar como era ser um unicórnio.

Desculpa, post pessoal demais. Mas ser comum me faz escrever só o que é fácil de extrair.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Rua Quinze com a Allison

Os parquímetros da Rua Quinze estavam tão sujos e velhos que eu me senti em casa. Há dois anos eu passei pela última vez naquele lugar. O vermelho desbotado de um prédio alto iniciou minha nostalgia. Com essa nova perspectiva, não encontrei motivos para ter fugido. Mas eu fiz. A falta de chuva deixava todo o passado mais confuso. O Ben, que deixou a Rua Quinze na época da seca há dois anos, dizia que os motivos eram claros, ela disse "não", então porque deveria ter continuado? Drew, que retornava à rua quinze após dois anos, dizia que um "não" era superável, Ben fora fraco,não lutou.
Decidi interceder. Perguntei a Drew porque ele não iria fazer isso? Porque ele não superava aquele não? Drew disse que dois anos haviam passado.
O problema, Drew, é que você criticou Ben por não ter superado um "não" e você tem medo de enfrentar dois anos? Esse tempo foi nossa culpa, você deve resgatá-lo. Para isso, precisamos do Ben.
Fitei a porta de vidro do prédio cinza, que um dia fora Branco, desejei que Ben abrisse-a, mas não o fez. Pedi a Drew. Ele foi seco:
—Seu passado, seu erro. Sua porta.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Slowly

Algumas coisas precisam de tempo para serem concluídas. Algumas pessoas não querem perder tempo com certas coisas. Outras coisas fazem o tempo passar.
De qualquer maneira, uma história não pode ser postada antes de algumas partes serem incluídas.

I'm sure I fall.
But, before him, girls just wanna have fun.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Prazer, eu sou Marcelo Rubens Paiva

Essa moda de hoje em dia de mudar pessoas de corpos me atingiu. Eu, uma garota de apenas 16 anos, fui parar, por vontade própria, no corpo do Marcelo. Ele, ou melhor, o novo eu, é um escritor de 40 e tantos anos, cadeirante. Decidi ver sua vida através de seu corpo por pura curiosidade. Como é ser um homem? Como é viver sentado em uma cadeira de rodas? Uma coisa dele eu já sabia, como é ser escritor, como passar nossos sentimentos para o papel.
Mas essa curiosidade foi só por um dia. As trocas permanentes de corpo não são permitidas ainda. Mas um dia no corpo de um adulto foi um pulo no tempo. Obrigações, trabalho e ainda ter uma vida, apesar de não ser a minha, o acordo com o Marcelo foi entrar totalmente em seu mundo. E eu vi tudo isso. O dia está acabando e o tempo acabou. Às vezes é tão melhor ser apenas uma garota de 16 anos. Jamais conseguiria ser tão corajosa quanto ele.


Texto para o site da Revista Capricho

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Estrada

Ela estava esparramada em sua pequena poltrona na van, seu ombro estava encostado no braço do rapaz ao lado. Era bom sentir o calor dele, o ar condicionado deixou o ambiente gelado. Ele a observa de soslaio, gostaria de puxar assunto com ela, perguntar qual curso estava prestando na Unicamp, mas não queria interromper seu cochilo, estava com fones de ouvido, de nada adiantaria perguntar-lhe qualquer coisa.
Ela ouvia sua voz calma e macia por trás do instrumental do filme Orgulho e Preconceito, ele conversava com o amigo, ela não tinha como iniciar uma conversa, já sabia que ele achara a prova daquele dia fácil.
Então ele também fechou os olhos e encostou sua cabeça na poltrona. Um garoto da primeira fileira virou-se para conversar com alguém da segunda e viu os dois dormindo na terceira, ombros colados e cabeças quase se encostando.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ciclos

Eu mudei o foco do meu olhar e cruzei com os dele, ele me lembra meu ex-namorado. Que pobreza de espírito, Mariana. Acabei de fazer a segunda prova da segunda fase da Unicamp na Unicamp. Sentei no chão para esperar a van quando ele entrou no meu campo de visão. Nós dois somos os únicos do pátio que estão ouvindo música nos fones de ouvido. Por esse tênis meio esportivo, essa calça azul-marinho, camiseta preta e cabelo com corte normal, eu diria que é rock nacional, tipo Legião.
Bom, pensamdo bem, eu não posso júlgá-lo assim só pelo tênis e pela marca do MP3player. Se olhassem para mim, achariam que eu estou ouvindo pagode. Credo. Só por causa do meu short curto e a rateirinha(melhor roupa para um vestibular no verão).
Ele me olhou mais uma vez e saiu andando enquanto Eddie Vedder gritava em meus ouvidos.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Green Lifestyle

O verão havia começado e o calor em Amparo era intenso. Estava tomando um banho morno, quando, de repente, senti a água esfriar, logo percebi que o gás do aquecedor acabara, como sempre acontecia. Em casa, morávamos apenas eu e meu pai, minha mãe havia morrido quando eu tinha dez anos; era nesses momentos que eu sentia sua falta. Ela nunca deixava faltar gás. Pensando nisso e em todos os outros banhos gelados que tomei no inverno, considerei a idéia de comprar um aquecedor solar. Eu já era responsável pelas compras de supermercado, pela faxineira contratada semanalmente e pelas roupas enviadas à lavanderia; com o esse aquecedor seria uma coisa a menos, afinal, o Sol nasce todos os dias.
No dia seguinte, no Empório do Grão, cafeteria do meu pai, eu e Victor, meu colega de escola,  procurávamos o preço do tal aquecedor em seu notebook. Esperei o movimento acalmar e levei o aparelho até o balcão, mostrando para o meu pai a oportunidade imperdível. Apenas mil e duzentos reais, prometia reduzir a conta de energia elétrica em setenta por cento.
—Já que usamos o aquecedor a gás — expliquei-lhe —, o nosso encanamento está pronto para usar esse solar. Teremos economia na conta de gás e...
—Lúcia — meu pai me interrompeu —, eu não tenho todo esse dinheiro.
—Pai, você não entendeu. A economia na conta vai compensar esse gasto. E tem a questão ambiental, é uma fonte limpa.
Eu sorri com a idéia mas ele continuou sério, me desanimando. Voltei para a mesa com o Victor. Ele ouviu toda a conversa e me consolou, dizendo que os meus problemas eram pequenos se comparados aos dele.
—Meus pais não param de reclamar que eu não faço coisa alguma — ele estava visivelmente magoado —, só porque eu passo a tarde em casa.
—É, você nem faz algum curso...
—Nem trabalho, nem pratico esporte — ele foi contando nos dedos —, só jogo video-game.
—Sedentário — brinquei e consegui fazê-lo rir.
—É esse fato que assusta minha mãe — ele disse —, ela fica apavorada só de pensar que os jovens estão cada vez mais desocupados, levando em consideração que nós somos o futuro da nação.
—Ela tem razão.
Victor desligou o notebook e foi para casa, seu programa de televisão favorito começaria em meia hora. Fiquei no café mais algum tempo, ajudando a lavar alguma xícaras. Passei no supermercado e fiz algumas compras que seriam entregues no dia seguinte. Estava há sete quadras de casa e começou a chover forte. Não tinha onde me abrigar, continuei andando e a chuva parou. Nunca gostei dessas chuvas de verão, começavam e acabavam sem aviso. Conforme o céu escurecia, a temperatura baixava. Cheguei em casa gelada e entrei debaixo da água quente do chuveiro, havia comprado um butijão de gás mais cedo. O banho não adiantou e, no dia seguinte, amanheci com dor de cabeça. Não fui na escola e percebi que estava gripada. Meu pai ficou comigo na parte da manhã e Victor ocupou a minha tarde com o dever de casa.
—Ah, Vi — empurrei meu fichário para o outro lado da mesa  —, não consigo me concentrar em química, meu nariz escorrendo está me distraindo. E tem aquela história de ontem...
—Lu — ele me fitou com aquele olhos azuis —, é tão simples. Você pode trabalhar no Empório do Grão para pagar o aquecedor. Você já tem dezesseis anos.
Ele tinha razão e continuou falando sobre o salário mínimo, trabalhando em período integral nas férias de verão, teria o dinheiro necessário.
—E, o melhor — ele empurrou meu fichário de volta —, o dono é seu pai. Ele não vai recusar a proposta.
Voltamos a fazer a lição. Assim que o Sol se pôs, Victor foi embora e eu me enrolei no cobertor, fez frio o dia todo em pleno verão, era esse o resultado do aquecimento global: um clima imprevisível. Dormi até a manhã seguinte, ainda doente. Fiquei em casa mais uma vez. Meu pai não pode me fazer companhia daquela vez, mas Victor apareceu depois do almoço.
—Minha mãe ficou até feliz por você estar doente — ele disse, enquanto procurava o livro de geografia —, por que, assim, eu não passo a tarde em casa.
Fizemos nosso trabalho de geografia, uma redação sobre alguma catástrofe ambiental diretamente ligada às mudanças climáticas, escrevemos sobre o Furacão Ike, seus ventos de até 195km/h provocaram perdas de US$ 20 bilhões, em setembro de 2008 nos EUA e no Caribe. À noite meu pai chegou como uma pizza e nós três jantamos. Depois da ida de Victor,
—Em duas semanas minhas aulas terminam — falei com uma voz propositadamente doce —, então eu poderei assumir o posto de garçonete.
—É uma boa idéia — ele admitiu —, mas eu tenho uma outra. Eu preciso de mais uma barista, o que você acha?
Um emprego mais divertido, eu adorava fazer cappuccinos e espressos. E o salário era maior. Ele fez alguns cálculos e disse que em dois meses eu pagaria o aquecedor solar. Se eu quisesse continuar trabalhando em meio período, ele me pagaria. Sorri ao ouvir a idéia, minha mesada seria multiplicada em cinco vezes.
Na outra manhã, fui para a escola e encontrei Victor, o convidei para me acompanhar até ao Posto de Atendimento do Trabalhador naquela tarde, eu precisava fazer minha carteira de trabalho. Ele agradeceu, mas disse que tinha compromisso.
—Ontem a noite eu fiquei um bom tempo conversando com a minha mãe — ele narrava sua história enquanto o professor conversava com um aluno sobre a tarefa —, ela disse que eu podia fazer trabalho voluntário. Então eu lembrei daquela instituição da rua 15, eles oferecem curso de música à crianças carentes.
Victor tocava violão muito bem, gostava do instrumento, naquela tarde, iria à instituição para se oferecer como professor. Desde então, nossas tardes ganharam um caráter sério, o suficiente para a mãe de Victor não ter mais medo de dizer que seu filho e a amiga eram, de verdade, o futuro da nação.


Texto para o concurso literário do BID. Não ganhei nada(o prêmio máximo eram três mil dólares).
Mas agora vocês podem lê-lo.
Queridos leitores, até quarta estarei ocupada com a segunda fase da Unicamp, então o blog não será atualizado até lá.
Mas eu estou feliz, vou tomar Starbucks todo dia!

sábado, 9 de janeiro de 2010

O frio e o calor

Calor.
Cada gota de suor é uma tentativa do meu corpo não ser tomado pela temperatura insuportável. Até o meu organismo odeia isso.
Quando o Sol toca a minha pele e a aquece, eu sei que é o desejo tentando me seduzir, a ruína pelo fogo é algo tentador, mas eu não vejo as coisas por esse ângulo.
Esse é o paraíso, mas não é o meu. Todos amam esse lugar. Qualquer um que se permita olhar para esse azul contolador, almeja morar aqui. Um dia eu quis isso.  Eu achei que eu finalmente estivesse amando até que vi que as minhas roupas eram uma camuflagem e a minha pele destoou.
Desde então eu procuro uma maneira de fugir. Começei até a empacotar minha mudança. A neve seria a experiência mais agradável.
Neve é a materialização da minha busca por outros sentimentos. Eu podia pegar o frio, tocá-lo. Mas aqui o calor é uma coisa gasosa dissipada por todos os cantos.
Enquanto algumas pessoas se jogam no desejo e vivem toda a paixão que sempre almejaram, outras dessitem disso e mergulham fundo no ódio.
De tudo o que vivi com paixão, eu sei que a melhor escolha é deixar ser consumido pelo calor.
Mas por tudo que eu vivi, eu sei que o ódio é frio, bom, entorpece e é a última peça que faltava para completar a minha vida.

A falta de

Minha mãe me perguntou se não era ruim ficar sozinha, porque, afinal de contas, eu poderia fazer alguma coisa para mudar isso, não era difícil, segundo ela, era só eu parar de passar o intervalo com fones de ouvido, tentar prestar mais atenção ao mundo ao meu redor e largar um pouco dos livros(eu até ando até a cantina enquanto leio). Não, mãe, é bom estar sozinha. É totalmente preferível estar sozinha com meus livros à estar com um bando de idiotas que só sabem falar da vida alheia.
Ela deveria olhar pelo outro lado, a conta de telefone baixou absurdamente. Antigamente eu ficava pelo menos meia hora no telefone todo dia. Hoje eu uso telefone uma vez por semana. Antes eu saia todo final de semana e chegava tarde em casa. Minha diversão atual é assistir DVDs, escrever e, talvez, dar uma volta no parque.
A vida sozinha é bem melhor. Eu sou poupada de gastar dinheiro com presentes de aniversário, poupada de ouvir os desabafos dos rebeldes sem causa, poupada de fazer favores que, na verdade, eu não estava nem um pouco afim de fazer, poupada de sair com o casal amigo e segurar vela. Não preciso ir no cinema e ficar dez minutos travando a típica batalha do que vamos assistir.
Eu faço muito mais coisas em um dia só, graças ao meu novo estilo de vida. Eu leio um livro inteiro em menos de uma semana, eu consigo assistir um filme toda tarde. Eu total recomendo esse estilo de vida, é uma ótima oportunidade para você se conhecer melhor. Há um ano eu podia criar uma situação na minha cabeça e prever o que minha amiga faria, pode acreditar, ela faria exatamente daquela maneira, mas a minha reação era um mistério. Felizmente, hoje eu me conheço melhor do que conheço qualquer outra pessoa.
No dia que eu fiz meu primeiro piercing, mostrei à minha prima, ela ficou surpresa e perguntou se eu fiz sozinha. Disse "claro que não! Você acha que eu sou louca de me furar sem a menor habilidade?!", ela riu e perguntou se eu fui ao tatuador(pois é, os tatuadores de hoje são bom-bril) sozinha, sem ninguém para me acompanhar. "Sim, eu fui sozinha", disse, "sem ninguém para eu apertar a mão", pensei. Pensando bem, quando eu estava sentada vendo a "arminha" que colocara o piercing no meu nariz, eu apertei forte a minha bolsa, por coicidência, justamente o meu diário. Ele que estava comigo há anos(não bem aquele, mas os diários, de uma forma geral). É quase como aquele "ditado" que nós mulheres dizemos(sabe aquele do "para que você precisa de um marido se tem um carro e um cachorro?"?), para que você precisa de amigos se tem um diário? Está certo, diário não é tudo aquilo. Acho que o cachorro também serve nessa.



Esse texto é meio totalmente de ficção, então, se você é meu amigo, não esquanta a cabeça.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

As outras

Ela se levantou para se despedir dele, olhou fundo em seus olhos e colocou a mão em seu rosto, disse para tomar cuidado e arrematou com um "te vejo mais tarde". Totalmente educada, eu assiti a cena sem rir e me despedi dela. Ele me convidou para sentar na cadeira que ela ocupava, próxima a ele. Eu conhecia bem seus olhos, eles estavam felizes em me ver. Ele colocou a mão no meu ombro e começou a gesticular da maneira que sempre faz, principalmente quando está animado. Ele se levantou da cadeira e foi pegar um cardápio para mim. Dei um riso abafado.
Tem tanta gente engraçada nesse mundo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Desejo

A campainha tocou, atravessei a sala e abri a porta. Encontrei-a completamente nua a minha porta. Seus cabelos ruivos pouco cobriam os seios e carregava uma concha que apoiava na parte frontal da cintura. Seu corpo era arredondado, macio e aveludado. Ela trazia um mar consigo. Suspirei e disse:
-Pode entrar!




Este é um ano regido por Vênus, o meu planeta. Espero que ela dê a você toda o amor e beleza que seu ano precisa.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Anjo

Ele fechou os olhos castanhos apoiou a cabeça no braço do sofá e tentou cochilar. Parecia calmo, seu sono não era de cansaço. Sua pele não expressava irritações. Seu peito peito inchava de ar então expirava lentamente.
Observava como se aquilo fosse um momento sagrado. Aquele foi meu momento sagrado. Até ele abrir os olhos novamente e me sugar para dentro deles.