terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Prazer, eu sou Marcelo Rubens Paiva

Essa moda de hoje em dia de mudar pessoas de corpos me atingiu. Eu, uma garota de apenas 16 anos, fui parar, por vontade própria, no corpo do Marcelo. Ele, ou melhor, o novo eu, é um escritor de 40 e tantos anos, cadeirante. Decidi ver sua vida através de seu corpo por pura curiosidade. Como é ser um homem? Como é viver sentado em uma cadeira de rodas? Uma coisa dele eu já sabia, como é ser escritor, como passar nossos sentimentos para o papel.
Mas essa curiosidade foi só por um dia. As trocas permanentes de corpo não são permitidas ainda. Mas um dia no corpo de um adulto foi um pulo no tempo. Obrigações, trabalho e ainda ter uma vida, apesar de não ser a minha, o acordo com o Marcelo foi entrar totalmente em seu mundo. E eu vi tudo isso. O dia está acabando e o tempo acabou. Às vezes é tão melhor ser apenas uma garota de 16 anos. Jamais conseguiria ser tão corajosa quanto ele.


Texto para o site da Revista Capricho

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Estrada

Ela estava esparramada em sua pequena poltrona na van, seu ombro estava encostado no braço do rapaz ao lado. Era bom sentir o calor dele, o ar condicionado deixou o ambiente gelado. Ele a observa de soslaio, gostaria de puxar assunto com ela, perguntar qual curso estava prestando na Unicamp, mas não queria interromper seu cochilo, estava com fones de ouvido, de nada adiantaria perguntar-lhe qualquer coisa.
Ela ouvia sua voz calma e macia por trás do instrumental do filme Orgulho e Preconceito, ele conversava com o amigo, ela não tinha como iniciar uma conversa, já sabia que ele achara a prova daquele dia fácil.
Então ele também fechou os olhos e encostou sua cabeça na poltrona. Um garoto da primeira fileira virou-se para conversar com alguém da segunda e viu os dois dormindo na terceira, ombros colados e cabeças quase se encostando.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ciclos

Eu mudei o foco do meu olhar e cruzei com os dele, ele me lembra meu ex-namorado. Que pobreza de espírito, Mariana. Acabei de fazer a segunda prova da segunda fase da Unicamp na Unicamp. Sentei no chão para esperar a van quando ele entrou no meu campo de visão. Nós dois somos os únicos do pátio que estão ouvindo música nos fones de ouvido. Por esse tênis meio esportivo, essa calça azul-marinho, camiseta preta e cabelo com corte normal, eu diria que é rock nacional, tipo Legião.
Bom, pensamdo bem, eu não posso júlgá-lo assim só pelo tênis e pela marca do MP3player. Se olhassem para mim, achariam que eu estou ouvindo pagode. Credo. Só por causa do meu short curto e a rateirinha(melhor roupa para um vestibular no verão).
Ele me olhou mais uma vez e saiu andando enquanto Eddie Vedder gritava em meus ouvidos.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Green Lifestyle

O verão havia começado e o calor em Amparo era intenso. Estava tomando um banho morno, quando, de repente, senti a água esfriar, logo percebi que o gás do aquecedor acabara, como sempre acontecia. Em casa, morávamos apenas eu e meu pai, minha mãe havia morrido quando eu tinha dez anos; era nesses momentos que eu sentia sua falta. Ela nunca deixava faltar gás. Pensando nisso e em todos os outros banhos gelados que tomei no inverno, considerei a idéia de comprar um aquecedor solar. Eu já era responsável pelas compras de supermercado, pela faxineira contratada semanalmente e pelas roupas enviadas à lavanderia; com o esse aquecedor seria uma coisa a menos, afinal, o Sol nasce todos os dias.
No dia seguinte, no Empório do Grão, cafeteria do meu pai, eu e Victor, meu colega de escola,  procurávamos o preço do tal aquecedor em seu notebook. Esperei o movimento acalmar e levei o aparelho até o balcão, mostrando para o meu pai a oportunidade imperdível. Apenas mil e duzentos reais, prometia reduzir a conta de energia elétrica em setenta por cento.
—Já que usamos o aquecedor a gás — expliquei-lhe —, o nosso encanamento está pronto para usar esse solar. Teremos economia na conta de gás e...
—Lúcia — meu pai me interrompeu —, eu não tenho todo esse dinheiro.
—Pai, você não entendeu. A economia na conta vai compensar esse gasto. E tem a questão ambiental, é uma fonte limpa.
Eu sorri com a idéia mas ele continuou sério, me desanimando. Voltei para a mesa com o Victor. Ele ouviu toda a conversa e me consolou, dizendo que os meus problemas eram pequenos se comparados aos dele.
—Meus pais não param de reclamar que eu não faço coisa alguma — ele estava visivelmente magoado —, só porque eu passo a tarde em casa.
—É, você nem faz algum curso...
—Nem trabalho, nem pratico esporte — ele foi contando nos dedos —, só jogo video-game.
—Sedentário — brinquei e consegui fazê-lo rir.
—É esse fato que assusta minha mãe — ele disse —, ela fica apavorada só de pensar que os jovens estão cada vez mais desocupados, levando em consideração que nós somos o futuro da nação.
—Ela tem razão.
Victor desligou o notebook e foi para casa, seu programa de televisão favorito começaria em meia hora. Fiquei no café mais algum tempo, ajudando a lavar alguma xícaras. Passei no supermercado e fiz algumas compras que seriam entregues no dia seguinte. Estava há sete quadras de casa e começou a chover forte. Não tinha onde me abrigar, continuei andando e a chuva parou. Nunca gostei dessas chuvas de verão, começavam e acabavam sem aviso. Conforme o céu escurecia, a temperatura baixava. Cheguei em casa gelada e entrei debaixo da água quente do chuveiro, havia comprado um butijão de gás mais cedo. O banho não adiantou e, no dia seguinte, amanheci com dor de cabeça. Não fui na escola e percebi que estava gripada. Meu pai ficou comigo na parte da manhã e Victor ocupou a minha tarde com o dever de casa.
—Ah, Vi — empurrei meu fichário para o outro lado da mesa  —, não consigo me concentrar em química, meu nariz escorrendo está me distraindo. E tem aquela história de ontem...
—Lu — ele me fitou com aquele olhos azuis —, é tão simples. Você pode trabalhar no Empório do Grão para pagar o aquecedor. Você já tem dezesseis anos.
Ele tinha razão e continuou falando sobre o salário mínimo, trabalhando em período integral nas férias de verão, teria o dinheiro necessário.
—E, o melhor — ele empurrou meu fichário de volta —, o dono é seu pai. Ele não vai recusar a proposta.
Voltamos a fazer a lição. Assim que o Sol se pôs, Victor foi embora e eu me enrolei no cobertor, fez frio o dia todo em pleno verão, era esse o resultado do aquecimento global: um clima imprevisível. Dormi até a manhã seguinte, ainda doente. Fiquei em casa mais uma vez. Meu pai não pode me fazer companhia daquela vez, mas Victor apareceu depois do almoço.
—Minha mãe ficou até feliz por você estar doente — ele disse, enquanto procurava o livro de geografia —, por que, assim, eu não passo a tarde em casa.
Fizemos nosso trabalho de geografia, uma redação sobre alguma catástrofe ambiental diretamente ligada às mudanças climáticas, escrevemos sobre o Furacão Ike, seus ventos de até 195km/h provocaram perdas de US$ 20 bilhões, em setembro de 2008 nos EUA e no Caribe. À noite meu pai chegou como uma pizza e nós três jantamos. Depois da ida de Victor,
—Em duas semanas minhas aulas terminam — falei com uma voz propositadamente doce —, então eu poderei assumir o posto de garçonete.
—É uma boa idéia — ele admitiu —, mas eu tenho uma outra. Eu preciso de mais uma barista, o que você acha?
Um emprego mais divertido, eu adorava fazer cappuccinos e espressos. E o salário era maior. Ele fez alguns cálculos e disse que em dois meses eu pagaria o aquecedor solar. Se eu quisesse continuar trabalhando em meio período, ele me pagaria. Sorri ao ouvir a idéia, minha mesada seria multiplicada em cinco vezes.
Na outra manhã, fui para a escola e encontrei Victor, o convidei para me acompanhar até ao Posto de Atendimento do Trabalhador naquela tarde, eu precisava fazer minha carteira de trabalho. Ele agradeceu, mas disse que tinha compromisso.
—Ontem a noite eu fiquei um bom tempo conversando com a minha mãe — ele narrava sua história enquanto o professor conversava com um aluno sobre a tarefa —, ela disse que eu podia fazer trabalho voluntário. Então eu lembrei daquela instituição da rua 15, eles oferecem curso de música à crianças carentes.
Victor tocava violão muito bem, gostava do instrumento, naquela tarde, iria à instituição para se oferecer como professor. Desde então, nossas tardes ganharam um caráter sério, o suficiente para a mãe de Victor não ter mais medo de dizer que seu filho e a amiga eram, de verdade, o futuro da nação.


Texto para o concurso literário do BID. Não ganhei nada(o prêmio máximo eram três mil dólares).
Mas agora vocês podem lê-lo.
Queridos leitores, até quarta estarei ocupada com a segunda fase da Unicamp, então o blog não será atualizado até lá.
Mas eu estou feliz, vou tomar Starbucks todo dia!

sábado, 9 de janeiro de 2010

O frio e o calor

Calor.
Cada gota de suor é uma tentativa do meu corpo não ser tomado pela temperatura insuportável. Até o meu organismo odeia isso.
Quando o Sol toca a minha pele e a aquece, eu sei que é o desejo tentando me seduzir, a ruína pelo fogo é algo tentador, mas eu não vejo as coisas por esse ângulo.
Esse é o paraíso, mas não é o meu. Todos amam esse lugar. Qualquer um que se permita olhar para esse azul contolador, almeja morar aqui. Um dia eu quis isso.  Eu achei que eu finalmente estivesse amando até que vi que as minhas roupas eram uma camuflagem e a minha pele destoou.
Desde então eu procuro uma maneira de fugir. Começei até a empacotar minha mudança. A neve seria a experiência mais agradável.
Neve é a materialização da minha busca por outros sentimentos. Eu podia pegar o frio, tocá-lo. Mas aqui o calor é uma coisa gasosa dissipada por todos os cantos.
Enquanto algumas pessoas se jogam no desejo e vivem toda a paixão que sempre almejaram, outras dessitem disso e mergulham fundo no ódio.
De tudo o que vivi com paixão, eu sei que a melhor escolha é deixar ser consumido pelo calor.
Mas por tudo que eu vivi, eu sei que o ódio é frio, bom, entorpece e é a última peça que faltava para completar a minha vida.

A falta de

Minha mãe me perguntou se não era ruim ficar sozinha, porque, afinal de contas, eu poderia fazer alguma coisa para mudar isso, não era difícil, segundo ela, era só eu parar de passar o intervalo com fones de ouvido, tentar prestar mais atenção ao mundo ao meu redor e largar um pouco dos livros(eu até ando até a cantina enquanto leio). Não, mãe, é bom estar sozinha. É totalmente preferível estar sozinha com meus livros à estar com um bando de idiotas que só sabem falar da vida alheia.
Ela deveria olhar pelo outro lado, a conta de telefone baixou absurdamente. Antigamente eu ficava pelo menos meia hora no telefone todo dia. Hoje eu uso telefone uma vez por semana. Antes eu saia todo final de semana e chegava tarde em casa. Minha diversão atual é assistir DVDs, escrever e, talvez, dar uma volta no parque.
A vida sozinha é bem melhor. Eu sou poupada de gastar dinheiro com presentes de aniversário, poupada de ouvir os desabafos dos rebeldes sem causa, poupada de fazer favores que, na verdade, eu não estava nem um pouco afim de fazer, poupada de sair com o casal amigo e segurar vela. Não preciso ir no cinema e ficar dez minutos travando a típica batalha do que vamos assistir.
Eu faço muito mais coisas em um dia só, graças ao meu novo estilo de vida. Eu leio um livro inteiro em menos de uma semana, eu consigo assistir um filme toda tarde. Eu total recomendo esse estilo de vida, é uma ótima oportunidade para você se conhecer melhor. Há um ano eu podia criar uma situação na minha cabeça e prever o que minha amiga faria, pode acreditar, ela faria exatamente daquela maneira, mas a minha reação era um mistério. Felizmente, hoje eu me conheço melhor do que conheço qualquer outra pessoa.
No dia que eu fiz meu primeiro piercing, mostrei à minha prima, ela ficou surpresa e perguntou se eu fiz sozinha. Disse "claro que não! Você acha que eu sou louca de me furar sem a menor habilidade?!", ela riu e perguntou se eu fui ao tatuador(pois é, os tatuadores de hoje são bom-bril) sozinha, sem ninguém para me acompanhar. "Sim, eu fui sozinha", disse, "sem ninguém para eu apertar a mão", pensei. Pensando bem, quando eu estava sentada vendo a "arminha" que colocara o piercing no meu nariz, eu apertei forte a minha bolsa, por coicidência, justamente o meu diário. Ele que estava comigo há anos(não bem aquele, mas os diários, de uma forma geral). É quase como aquele "ditado" que nós mulheres dizemos(sabe aquele do "para que você precisa de um marido se tem um carro e um cachorro?"?), para que você precisa de amigos se tem um diário? Está certo, diário não é tudo aquilo. Acho que o cachorro também serve nessa.



Esse texto é meio totalmente de ficção, então, se você é meu amigo, não esquanta a cabeça.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

As outras

Ela se levantou para se despedir dele, olhou fundo em seus olhos e colocou a mão em seu rosto, disse para tomar cuidado e arrematou com um "te vejo mais tarde". Totalmente educada, eu assiti a cena sem rir e me despedi dela. Ele me convidou para sentar na cadeira que ela ocupava, próxima a ele. Eu conhecia bem seus olhos, eles estavam felizes em me ver. Ele colocou a mão no meu ombro e começou a gesticular da maneira que sempre faz, principalmente quando está animado. Ele se levantou da cadeira e foi pegar um cardápio para mim. Dei um riso abafado.
Tem tanta gente engraçada nesse mundo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Desejo

A campainha tocou, atravessei a sala e abri a porta. Encontrei-a completamente nua a minha porta. Seus cabelos ruivos pouco cobriam os seios e carregava uma concha que apoiava na parte frontal da cintura. Seu corpo era arredondado, macio e aveludado. Ela trazia um mar consigo. Suspirei e disse:
-Pode entrar!




Este é um ano regido por Vênus, o meu planeta. Espero que ela dê a você toda o amor e beleza que seu ano precisa.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Anjo

Ele fechou os olhos castanhos apoiou a cabeça no braço do sofá e tentou cochilar. Parecia calmo, seu sono não era de cansaço. Sua pele não expressava irritações. Seu peito peito inchava de ar então expirava lentamente.
Observava como se aquilo fosse um momento sagrado. Aquele foi meu momento sagrado. Até ele abrir os olhos novamente e me sugar para dentro deles.