domingo, 10 de janeiro de 2010

Green Lifestyle

O verão havia começado e o calor em Amparo era intenso. Estava tomando um banho morno, quando, de repente, senti a água esfriar, logo percebi que o gás do aquecedor acabara, como sempre acontecia. Em casa, morávamos apenas eu e meu pai, minha mãe havia morrido quando eu tinha dez anos; era nesses momentos que eu sentia sua falta. Ela nunca deixava faltar gás. Pensando nisso e em todos os outros banhos gelados que tomei no inverno, considerei a idéia de comprar um aquecedor solar. Eu já era responsável pelas compras de supermercado, pela faxineira contratada semanalmente e pelas roupas enviadas à lavanderia; com o esse aquecedor seria uma coisa a menos, afinal, o Sol nasce todos os dias.
No dia seguinte, no Empório do Grão, cafeteria do meu pai, eu e Victor, meu colega de escola,  procurávamos o preço do tal aquecedor em seu notebook. Esperei o movimento acalmar e levei o aparelho até o balcão, mostrando para o meu pai a oportunidade imperdível. Apenas mil e duzentos reais, prometia reduzir a conta de energia elétrica em setenta por cento.
—Já que usamos o aquecedor a gás — expliquei-lhe —, o nosso encanamento está pronto para usar esse solar. Teremos economia na conta de gás e...
—Lúcia — meu pai me interrompeu —, eu não tenho todo esse dinheiro.
—Pai, você não entendeu. A economia na conta vai compensar esse gasto. E tem a questão ambiental, é uma fonte limpa.
Eu sorri com a idéia mas ele continuou sério, me desanimando. Voltei para a mesa com o Victor. Ele ouviu toda a conversa e me consolou, dizendo que os meus problemas eram pequenos se comparados aos dele.
—Meus pais não param de reclamar que eu não faço coisa alguma — ele estava visivelmente magoado —, só porque eu passo a tarde em casa.
—É, você nem faz algum curso...
—Nem trabalho, nem pratico esporte — ele foi contando nos dedos —, só jogo video-game.
—Sedentário — brinquei e consegui fazê-lo rir.
—É esse fato que assusta minha mãe — ele disse —, ela fica apavorada só de pensar que os jovens estão cada vez mais desocupados, levando em consideração que nós somos o futuro da nação.
—Ela tem razão.
Victor desligou o notebook e foi para casa, seu programa de televisão favorito começaria em meia hora. Fiquei no café mais algum tempo, ajudando a lavar alguma xícaras. Passei no supermercado e fiz algumas compras que seriam entregues no dia seguinte. Estava há sete quadras de casa e começou a chover forte. Não tinha onde me abrigar, continuei andando e a chuva parou. Nunca gostei dessas chuvas de verão, começavam e acabavam sem aviso. Conforme o céu escurecia, a temperatura baixava. Cheguei em casa gelada e entrei debaixo da água quente do chuveiro, havia comprado um butijão de gás mais cedo. O banho não adiantou e, no dia seguinte, amanheci com dor de cabeça. Não fui na escola e percebi que estava gripada. Meu pai ficou comigo na parte da manhã e Victor ocupou a minha tarde com o dever de casa.
—Ah, Vi — empurrei meu fichário para o outro lado da mesa  —, não consigo me concentrar em química, meu nariz escorrendo está me distraindo. E tem aquela história de ontem...
—Lu — ele me fitou com aquele olhos azuis —, é tão simples. Você pode trabalhar no Empório do Grão para pagar o aquecedor. Você já tem dezesseis anos.
Ele tinha razão e continuou falando sobre o salário mínimo, trabalhando em período integral nas férias de verão, teria o dinheiro necessário.
—E, o melhor — ele empurrou meu fichário de volta —, o dono é seu pai. Ele não vai recusar a proposta.
Voltamos a fazer a lição. Assim que o Sol se pôs, Victor foi embora e eu me enrolei no cobertor, fez frio o dia todo em pleno verão, era esse o resultado do aquecimento global: um clima imprevisível. Dormi até a manhã seguinte, ainda doente. Fiquei em casa mais uma vez. Meu pai não pode me fazer companhia daquela vez, mas Victor apareceu depois do almoço.
—Minha mãe ficou até feliz por você estar doente — ele disse, enquanto procurava o livro de geografia —, por que, assim, eu não passo a tarde em casa.
Fizemos nosso trabalho de geografia, uma redação sobre alguma catástrofe ambiental diretamente ligada às mudanças climáticas, escrevemos sobre o Furacão Ike, seus ventos de até 195km/h provocaram perdas de US$ 20 bilhões, em setembro de 2008 nos EUA e no Caribe. À noite meu pai chegou como uma pizza e nós três jantamos. Depois da ida de Victor,
—Em duas semanas minhas aulas terminam — falei com uma voz propositadamente doce —, então eu poderei assumir o posto de garçonete.
—É uma boa idéia — ele admitiu —, mas eu tenho uma outra. Eu preciso de mais uma barista, o que você acha?
Um emprego mais divertido, eu adorava fazer cappuccinos e espressos. E o salário era maior. Ele fez alguns cálculos e disse que em dois meses eu pagaria o aquecedor solar. Se eu quisesse continuar trabalhando em meio período, ele me pagaria. Sorri ao ouvir a idéia, minha mesada seria multiplicada em cinco vezes.
Na outra manhã, fui para a escola e encontrei Victor, o convidei para me acompanhar até ao Posto de Atendimento do Trabalhador naquela tarde, eu precisava fazer minha carteira de trabalho. Ele agradeceu, mas disse que tinha compromisso.
—Ontem a noite eu fiquei um bom tempo conversando com a minha mãe — ele narrava sua história enquanto o professor conversava com um aluno sobre a tarefa —, ela disse que eu podia fazer trabalho voluntário. Então eu lembrei daquela instituição da rua 15, eles oferecem curso de música à crianças carentes.
Victor tocava violão muito bem, gostava do instrumento, naquela tarde, iria à instituição para se oferecer como professor. Desde então, nossas tardes ganharam um caráter sério, o suficiente para a mãe de Victor não ter mais medo de dizer que seu filho e a amiga eram, de verdade, o futuro da nação.


Texto para o concurso literário do BID. Não ganhei nada(o prêmio máximo eram três mil dólares).
Mas agora vocês podem lê-lo.
Queridos leitores, até quarta estarei ocupada com a segunda fase da Unicamp, então o blog não será atualizado até lá.
Mas eu estou feliz, vou tomar Starbucks todo dia!

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