quarta-feira, 10 de março de 2010

História velha

No primeiro ano do Ensino Médio, minha professora de redação(que era uma fofa e sempre usava um All Star vermelho) passou um poema para nós trabalharmos com interpretação de texto, Velha História, de Vinícus de Moraes. Ela sentou na mesa, de frente para nós, e ditou:

 Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias…
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte


Ela dava apenas uma aula por semana, então não terminou e deixou para a semana segiunte. Nós continuamos o trabalho, a turma estava impaciente, ninguém gostava de ditado, ditado é tão... terceira série! Mesmo no meio de resmungos, ela continuou:
 
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.


 E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.


 O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.


Ao proferir a última palavra, a sala, em uníssono, gemeu um "ah, não acredito, você ditou isso tudo para o cara voltar no final?". Ela riu e esperou a sala se acalmar. Escreveu três questões na lousa: 
1) O que são os caminhos do poema?
2) Porque o homem voltou?
3) Justifique o título do poema.
Os "caminhos" do poema nada mais eram que as escolhas que nós fazemos. Pensando bem sobre o cara, ele havia escolhido o caminho aparentemente mais fácil, mas durante o trajeto ele percebeu que não era bem assim.
Se a nossa professora tivesse entregue o poema impresso para nós, jamais lembraríamos disso. Ela escolheu o caminho mais difícil, mas valeu a pena.

2 comentários:

Larissa disse...

Há alguns anos atrás, descobri que minha avó era afilhada do Vinícios de Moraes. Depois que ela se casou e mudou para a roça, eles perderam totalmente o contato. Uma pena que naquela época não existia internet, celular, ou qualquer outra coisa do tipo!

Esse poema é muito lindo.
Ai, ai.. benditas escolhas! :S

And Yoshi disse...

É, as vezes a vida nos traz caminhos mais fáceis que nem sempre vão nos deixar prosseguir até o lugar que queremos...

E nem sempre o mais complicado será o correto... Então devemos sempre agir com sabedoria e escolhermos o que nos traria mais satisfação, pois quando se tem como voltar ainda podemos ter uma chance, mas nem sempre é assim...

Sabedoria e escutar os mais velhos são coisas que andam juntas! ^^

Beijos Mari! ♥