sexta-feira, 23 de julho de 2010

Sin

Eu gosto de ver pessoas e animais dormindo. Para você ter uma idéia, o melhor momento que eu tive com um cara que eu, por fim, acabei amando, eu estava deitada de frente para ele, a gente apenas se olhava. Não nos beijamos durante alguns minutos. Só nos prendemos num olhar incessante. Eu chorei, singelamente, apenas lacrimejei, só de olhar para ele e perceber a imensidão de tudo aquilo.
Te ver dormir foi mais precioso que te beijar e estragar aquele momento calmo. Observar você foi muito pessoal. Dependia só de mim. Eu podia pensar muito sobre tudo aquilo. Não havia interação atrapalhando. Eu apenas sentia aquilo e tentava entender.
Eram meu tato, minha visão, meu olfato postos naquele contexto. Não o nosso paladar.
Meu maior desejo sexual é você. Eu pude senti-lo da forma mais singela e calma que eu gosto, dormindo. Você era irracional. Se espreguiçava, segurando minha mão. Roncava. Respirava, respirava, e, respirava, fora de ritmo, porém, tranquilo. Tremia o lábio em alguns momentos.
Meu maior medo é me apaixonar por você. Eu nunca achei lindo um ronco. Nunca apreciei o mau hálito matinal. Passei boa parte da noite insone, te olhando, te ouvindo. Era enlouquecedor pensar em você ao meu lado. Eu dormi, por poucas horas, nos teus braços.
Minha pele roçava no teu peito nu, sentia queimar. Nossa pele parecia incompatível. Como se a tua secretasse algo que fizesse mal a minha. Nunca me senti tão febril sem exercício físico ou doença.
Você se tornou a minha enfermidade. Vendi minha alma por uma noite. Eu te toquei. Apesar de tudo, quis te beijar. Eu li o pecado diversas vezes na tua pele. Aquilo doía na minha retina, na minha consciência. Você dispôs sua boca há ridículos centímetros da minha, olhei-a. Um avermelhado desbotado.
Até poucas horas antes você era um ser intocável. Todo meu sentimento era platônico. Você era perfeito, posto sobre um pedestal, ao qual eu jamais alcançaria. Alto demais para a minha simplicidade.
Você derrubou aquele pedestal ao me tocar. Invadiu minha zona de conforto, furou minha bolha de isolamento. Você penetrou minha alma até sangrar. Eu não posso tê-lo, mas você estava, inocente, frágil e dócil, dormindo.
A falsa imagem que tinha de você era polida. Você era irresistível, simpático, ideal. Irreal.
Ao passar de uma noite você se tornou humano. Fumante. Sedutor. Traidor. Macio. Eu logo pus sua humanidade num patamar alto. Você era humano e tocável. Seus defeitos eram belos.
Eu não te conheço. E jamais poderei tê-lo.
Quando você me abraçaria, me fitaria, me quereria daquela maneira? Quando você dormiria profundo ao meu lado?
A qualquer momento. Mas jamais seria um momento verdadeiro.

Um comentário:

Priscilla Müller disse...

Maravilhoso, fantástico!