terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ilha do Cardoso - apenas o primeiro dia

Os morros, a neblina entre eles e as nuvens atrás formavam várias camadas de morros. Foi ali que o Sol começou a dar as caras na quarta-feira de manhã. Eram cinco e meia da manhã e eu havia dormido apenas uma hora durante a viagem, ouvindo Tom Jobim. Estava no O Fazendeiro, comendo uma pão de batata com catupiry, enquanto todos começavam a acordar, ansiosos para chegar em Cananéia, ainda faltava duas horas e meia. Enquanto o ônibus atravessava quilômetros de estrada margeada por bananeiras(nunca vi tantas juntas em toda a minha vida), meus olhos ficaram pesados e cochilei por mais uma hora.
Cananéia era uma cidade pequena e charmosinha. As construções mais altas eram sobradinhos. Tomamos café da manhã na Pousada do Cardoso, comi apenas dois pedaços de bolo e uma banana, achando que aquilo daria conta até chegar na pousada. O ônibus seguiu até o pir, pude observar as outras casinhas, mais charmosinhas, todas coloridas. O canal era lindo, água azul rodeada por mata virgem e morros; entramos na escuna(eu, com medo de cair) , Lua Cheia V, seguimos por mais de duas horas no canal. Tudo era lindo, eu consegui me acostumar  com o fato de estar em um barquinho, sentei na “janelinha” e, com sol batendo no meu corpo, observei toda a mata atlântica preservada.  No caminho encontrávamos bolsões de areia e mangue.  Consegui ver um sambaqui, era um amontoado de conchinhas que, de longe, parecia uma areia inóspita. Em um momento o sinal de celular se extinguiu, não havia mais como mandar sms para a minha mãe dizendo como era tudo.
Chegando na comunidade do Marujá, colocamos nossas malas na pousada e fomos almoçar(o café da manhã era apenas uma faminta lembrança). O almoço era simples: arroz, feijão, beterraba, cenoura, alface, acelga, tomate, pepino e peixe frito(que eu recusei, por ser vegetariana).  Após o almoço todos foram para a praia, menos eu e a Ana, preferimos nos jogar na cama. No final da tarde, encontramos nossos monitores, a Camila e o Gelson, para conhecermos o núcleo de visitantes, apenas mil turistas podem permanecer na Ilha ao mesmo tempo, se exceder um, esse um volta para Cananéia, dessa maneira eles evitam a degradação do parque estadual. Era tudo muito simples, casas pequenas e rodeadas por arbustos, a maioria não tinha cerca(as que tinham, eram baixas). Voltamos pela Praia do Marujá, fui fotografando o lixo que a maré trouxe, várias garrafas, chinelos e embalagens de miojo. Era triste pensar que uma reserva ecológica inocente recebe lixo de todos os tipos de embarcações, de todas as nacionalidades. Encontrei embalagem de miojo árabe e tailandês, várias de Qualy Cremosa, algumas de camisinha, o lixo mais duro e resistente dava lar a mariscos e algas.
Assim que chegamos na pousada, anoiteceu e o gerador foi ligado. Tomei banho no banheiro de um metro e meio por um metro e meio, inteiro sujo, pois as meninas já tinham o molhado todo e eu havia entrado com o chinelo sujo de areia. Me secar foi muito agradável, porque não tinha lugar para fazer isso, me vestir foi ainda mais cômico. Prefiro nem comentar muito sobre todo o malabarismo que eu fiz. O jantar foi servido: arroz, feijão, beterraba, cenoura, alface, acelga, tomate, pepino e peixe frito. Tentei ligar para a minha mãe, mas a dona da pousada disse que ele estava sem linha e o telefone comunitário já tinha fechado; voltei para o quarto para pegar qualquer coisa, peguei o celular e mandei um sms escrito “Wish you were here” para meu namorado, não foi enviado, claro, mas aquilo me fez chorar, apenas vinte e quatro horas e eu já estava com saudade de tudo. Saudade dele.
O Cláudio, outro monitor, fez uma palestra sobre os tipos de animais que podem ser encontrados na Ilha e mostrou fotos de várias trilhas, a maioria era do Perequê, a parte da Ilha mais próxima do continente onde se encontrava o alojamento estadual e o museu(que estavam em reforma, portanto não nos hospedamos lá). Fomos dormir perto das onze horas, todas cansadas. Minha cama era a parte de cima da beliche, a qual eu tive medo de dormir, porque ela balançava toda quando eu me mexia e não tinha um guarda corpo, coloquei meu tênis, pulei de lá e coloquei o colchão no chão, com uma ponta para baixo da cama da Ana. Deitei e descobri a triste realidade: meu cobertor cheirava a miojo de carne. De madrugada esfriou e eu tive que me cobrir com ele até o pescoço...